Por Eça de Queirós (1925)
como que a evidencia da grandeza da Capital e da magnificencia da Monarchia. As mulheres, sobretudo, impressionavam-no : na compostura dos seus movimentos, na brancura dos seus pescoços, sentia a influencia das genealogias que as ennobreciam e dos palacetes que habitavam ; admirou as luvas de oito botões e as fórmas dos penteados ; desejava saber o que diziam, porque sorriam. Estaria Ella ? Procurou-a até ás torrinhas, com o binoculo. Não a viu—-e invadiu-o uma vaga melancolia. O jantar pesava-lhe, o calor amollecia-o. Nas filas clareadas de fauteuüs, reparava agora em homens, de cabello lustroso e bem cortado, com peitilhos resplandecentes, em attitudes languidas. O seu fato coçado separava-o d'aquella sociedade bem vestida, com ru ges-ruges de sêdag e gravatas brancas : havia em todas aquellas pessoas a afinidade d'uma frequentacão permanente, conheciam-se, sabiam, uns dos outros, os sentimentos, as fortunas, o timbre da voz, os parentescos ; sentia-se vagamente um intruso : desejou ser titular —e que o Victorino lhe mandasse depressa a casaca ! Depois, presentia n'aquella sociedade, instinctivamente, uma indifferença pela Arte, pela Poesia, pelo Genio: havia nas maneiras alguma cousa de ficticio, incompativel com a preoccupagão do Ideal, nas conversas, o que quer que fosse de ligeiro, que denunciava a trivialidade das idéas, Parecia-lhe agora que o seu livro, os Esmaltes e Jda8, todas as suas poesias, o seu drama, não seriam bastantes para interessar aquellas indifferen — como, ai ! o seu dinheiro era insufficiente para egualar aquellas elegancias. Veio-lhe uma vaga melancolia, pelas excellencias do seu coração desconhecido e as scintillações do seu talento inedito. triste, com a desconsolação de se sentir mal vestido, de ser obscuro, tímido, olhava para o braço do rabecão, apoiado á grade da orchestra, pensando no seu quarto em Oliveira d'Azemeis, nas noites vibrantes de trabalho, em tantas aspirações d'então, que a presença d'uma burguezia rica, prospera e aparentada, lhe fazia agora parecer irrealisaveis. E lembrava-se de Oliveira d'Azemeis, como d'um elemento natural em que não contrastava.
Mas os musicos, sahindo de baixo do palco, installavam-se e afinações de rabeca corriam na orchestra : o publico voltava e o panno, erguendo-se devagar, descobriu um galeão arrogante e decora-
Soldados com mosquetes passeavam no castello da proa. N'um cubiculo baixo, um fidalgo, de gibão de velludo e gorro de plumas, media com um compasso, sobre um mappa ; e cercada de comparsas de faces avelhentadas e gastas, uma dama gorda cantava, sentada n'uma postura de sarau.
A desafinação dos coros irritava os dilettantes : havia d'escarneo. Que escandalo ! rosnava. ge grossamente, com indignação. Ih ! Jesus ! », gania-se com arrepios. Melchior, affectando um horror de critico, tapava os ouvidos. A dama córava, empallidecia, via-se-lhe um suor afflicto —e não tirava de sobre o seio bojudo a mãozinha papuda. Mas uma sineta deu um toque melancolico, e ROIdados e marinheiros começaram, n'um canto largo, a orar a S. Domingos. Então, tacões patearam ; um sujeito, ao lado, soltou uma brutalidade irritada. Melchior voltava-se para os lados, acc,usando o ensaiador, a empreza, o governo, e acabou por se enterrar na cadeira, n'uma resignação sombria.
— Isto nem é S. Carlos, nem é nada ! uma choldra !
No emtanto, Nelusko, apparecendo junto ao. mastro, ó proa, soltava, n'uma grande attitude, o seu Áterta I
Alerta marinari
II vento cangia
Apitos de manobra silvaram e na orehestra passaram os rumores grandiosos d'um mar descn.cadeado, que brama sob a cerração temerosa.
Arthur, enthusiasmado, achava-se em plena Historia Tragico-Maritima. O periodo das Descobertas, que só conhecia por fragmentos, sempre tivera para elle uma poesia emocionante, e a antiquada estructura do galeão, as plumas dos fidalgo» o pharol primitivo no castello de proa atirando a primeira luz ás aguaz virginaes, davam-lhe visões de navegações heroicas : parecia-lhe vêr as caravel1as do Gama, passando o Cabo ; sentia a oração dos homens, com um grande medo no coração ; ouvia o brado do mar, dando em vão nos penedos; os gritos que passam no ar e são a alma errante dos mortos naufragados . . . e aquellas imaginações da arte exaltavam-no retrospectivamente pelas realidades da historia.
Magnifico, Melchior ! — disse baixo.
O outro acotovelou-o :
— Veja-me agora isto.
Era Nelusko, que, entre a marinhagem apavorada, com gestos temerosos e cavidades na voz, cantava a colera do Adamastor. Palmas estalaram, houve gritos de bis ! O ruido dos applausos electrisou Arthur ; invejou a gloria dos maestros. Nelusko, com o suor luzidio sobre a face acobreada, agradecia, curvado e a respiração offegante erguia-lhe sobre o peito os collares de contas, barbaramente coloridos.
Mas o tenor, depois, desagradou : um murmurio hostil correu nos fa'uteuits. — E quando, entre tiros d'arcabuzes, o panno desceu, Melchior agarrou o chapéu :
Ora sebo para esta Africana ! Vamos a um cigarrinho ló fóra,
Arthur seguiu-o. Estava vagamente fatigado da atmosphera sobrecarregada das respirações, do gaz, da admiração, do Collares. Aquella musica forte, resoando-lhe muito perto dos ouvidos, ator doara-o ; não encontrara n'ella a sensação fina que lhe davam as melodias que conhecia, da Lucia, da Somnambula, que lhe espiritualisavam o cerebro e traziam ás suas idéas, na alegria ou na melancolia, um rythmo cantante. E no pequeno patamar de pedra, em cima, junto ao bico de gaz, fumava calado, ao pé de Melchior, com um amollecimento de todos os musculos, um vago bocejo geral.
Um sujeito que descia das ordens superiores embrulhando um cigarro, pediu-lhe o favor do seu lume A sua cabelleira, que parecia estopa negra, sahia fóra da aba do chapéu ; era baixo, secco, com uma face trigueira e rapada de seminarista ; usava lunetas azues e a gravata de fustão com pintas brancas cahia-lhe, n'um laço fôfo, sobre a sobrecasaca estreita, apertada até acima.
Accendeu o cigarro e agradeceu cortezmente.
— Olha que melro I — rosnou Melchior.
— Quem é ?
— O Jacome Nazareno, um republicano da sucia do Mathias, um malandro !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.