Por Eça de Queirós (1900)
Quando Gonçalo, que viera da Torre na égua, atravessou a ante-sala, ainda reconheceu um dos painéis da parede, fumarento combate de galeões, que ele uma tarde rasgara jogando o espadão com André. Sob esse painel, à borda do canapé de palhinha, esperava melancolicamente um amanuense do Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos. E de uma porta remota, ao fundo do corredor, André, avisado pelo criado, o fiel Mateus, gritou alegremente:
- Ó Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Saí da tina... Ainda estou em ceroulas!
E em ceroulas o abraçou, num generoso abraço de parabéns. Depois, enquanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das malas - gravatas, peúgas de seda, garrafas de perfumes - conversaram do calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada...
- Um horror! - exclamava o Cavaleiro aquecendo um ferro de frisar à lâmpada de álcool. - Todasas ruas da Baixa em obras, cobertas de caliça, de poeirada. O Central infestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Túnis, Lisboa!... Mas enfim, lá combatemos bravamente o bom combate!
Gonçalo sorria, do canto do divan onde se acomodara, entre uma pilha de camisas de cor e outra de ceroulas com monograma flamante:
- E então, Andrezinho, tudo arranjado, hem?
O Cavaleiro, diante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas grossas do bigode. E só depois de o ensopar em brilhantina, de acamar as ondas da cabeleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a Gonçalo, já inquieto, que a eleição ficara sólida...
- Mas imagina tu! Quando apareci em Lisboa, no Ministério do Reino, encontrei o Círculo prometido ao Pita, ao Teotônio Pita, o grande homem da Verdade...
O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:
- E então?...
E então ele mostrara muito asperamente ao José Ernesto a inconveniência de dispor do Círculo como de um charuto, sem o consultar, a ele, Governador Civil - e dono do Círculo... E como o José Ernesto se arrebitava, aludia à conveniência superior do Governo, ele logo, estendendo o dedo firme: - "Pois Zezinho, flor, ou trago o Ramires por Vila-Clara, ou me demito, e arde ~ Espantos, escarcéus, berreiros - mas o José Ernesto cedera, e tudo findou jantando ambos em Algés com o tio Reis Gomes, onde à noite, ao bluff as senhoras lhe arrancaram quatorze mil reis.
- Em resumo, Gonçalinho, precisamos conservar os olhos atentos. O José Ernesto é rapaz leal,meu velho amigo. E depois conhece o meu gênio... Mas há os compromissos, as pressões... E agora a novidade pitoresca. Sabes quem se propõe contra ti, pelos Regeneradores?... Adivinha... O Julinho!
- Que Julinho?... O Júlio das fotografias?
- O Júlio das fotografias.
- Diabo!
O Cavaleiro encolheu os ombros, com piedade:
- Arranja dez votos à porta da quinta, tira o retrato a todos os taverneiros do Círculo em mangasde camisa, e continua a ser o Julinho... Não! só Lisboa me inquieta, a canalha política de Lisboa!
Gonçalo torcia o bigode desconsolado:
- Imaginei tudo mais sólido, mais inabalável... Assim com todas essas intrigas, ainda surdetrapalhada... Ainda lá não vou!
O Cavaleiro, ao espelho, esticava o fraque - que experimentara abotoado, depois repuxadamente aberto sobre o colete de fustão cor de azeitona, onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida por uma safira. Por fim, encharcando o lenço com essência de feno:
- Nós estamos bem aliados, bem consagrados, não é verdade? Então meu caro Gonçalo,sossega, e almocemos regaladamente !... Creio que este fraque do nosso Amieiro assenta com certa graça, hem?
- Magnífico! - afirmou Gonçalo.
- Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu reveres os velhos pousos e te florires com umarosa de Corinde.
E logo no corredor, ornado de jarrões da Índia, de arcas de charão, enlaçando o braço de Gonçalo, do seu recuperado Gonçalo:
- Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de Corinde, como há cincoanos... E nada mudou, nem um criado, nem uma cortina! Agora, um destes dias, preciso visitar a Torre.
Gonçalo acudiu ingenuamente:
- Oh! a Torre está muito mudada... Muito mudada!
E um embaraçado silêncio pesou - como se entre eles surgisse a imagem entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das esperanças, quando André e Gracinha procuravam as últimas violetas de abril, sob o sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos úmidos muros da Mãe d'Água. Ainda em silêncio desceram a escada de caracol - por onde ambos outrora se despenhavam cavalgando o corrimão. E embaixo, numa sala abobadada, rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavaleiros nas espaldas, André quedou diante da porta envidraçada do jardim, ondeou um gesto desconsolado e lânguido:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.