Por Visconde de Taunay (1872)
—Gentes, observou cuspindo para um lado, vejam só que valentão... E sabe manejar garrucha!...
—Acabemos com isso, gritou Cirino.
—Acabemos, retorquiu Manecão com fingida calma.
—Mas quem é o senhor? perguntou Cirino.
—Eu?
—Sim!... sim!...
—Então não me conhece?
—Não, balbuciou Cirino.
—Conhece Nocência? uivou Manecão com voz terrível
E de supetão tirando uma garrucha da cintura, desfechou-a à queima-roupa em Cirino.
Varou a bala o corpo do infeliz e o fez baquear por terra.
Dois gritos estrugiram.
Um de agonia, outro de triunfo.
Ficara Cirino estendido de bruços. Reunindo as forças, que se lhe escapavam com o sangue, voltou-se de costas e prorrompeu em vociferações contra o inimigo, que o contemplava sardônico.
—Matador! vil!... sim!... conheço Inocência... Ela é minha... Infame! .. Mataste-me... mas mataste também a ela!... Que te fiz eu?... Deus te há de amaldiçoar... sim, meu Deus, meus Santos .. maldição sobre este assassino... Foge, foge... minha sombra há de seguir-te sempre...
—Melhor, interrompeu Manecão do alto do cavalo, isso mesmo é o que eu quero.
—Ah! queres? continuou Cirino com voz rouquejante, não é?... Pois bem!... De noite e de dia... minha alma há de estar contigo . . sempre, sempre! . . .
Calou-se por um pouco e, revolvendo-se no chão, passou a mão pela testa.
Lentejava-lhe dos poros o suor frio e visguento da morte.
Foi seu rosto abandonando a expressão de rancor; a respiração tornou-se-lhe mais difícil
—Não murmurou com pausa e gravidade, não quero morrer... assim. Devo sair desta vida... como cristão... Hei de saber perdoar... E reunindo as forças, acrescentou com unção e energia: Manecão... eu te perdôo... por Cristo... que morreu... na cruz, para nos salvar... eu te perdôo Nosso Senhor tenha pena de ti... Eu te perdôo, ouviste?
A medida que o moribundo pronunciava estas palavras, esbugalhara Manecão os olhos de horror com o corpo todo a tremer.
—Não quero o teu perdão, bradou ele a custo.
—Não importa, respondeu-lhe Cirino com voz suave. Ele é... dado do fundo d'alma... Cata sobre tua cabeça...
Quero, quero morrer como cristão... Que me importa agora o mundo, a vingança... tudo?... só Inocência!... Coitada de Inocência... Quem sabe... se... ela... não morrerá? Manecão, dá-me água. Água pelo amor de Deus!... Desce do cavalo, homem. . . É um defunto que te pede... Desce!...
E com os braços erguidos acenava para Manecão.
—Água, bradou o mancebo forcejando por levantar-se, dá-me água... eu te dou a salvação...
Sentia o capataz escorrer-lhe o suor dentre os cabelos. Queria fugir e não podia. Parecia que os seus olhos tinham de acompanhar passo a passo a agonia da sua vitima. Aquela cena, se lhe afigurava um pesadelo, e completo torpor lhe tolhia os membros.
Tirou-o desse enleio o bater das patas de um animal que vinha pela estrada a trote.
Ouvira também Cirino o estrupido e arregalara com ansiedade os olhos.
Desabrochou-lhe nos lábios um sorriso de acre tristeza.
Alguém vinha chegando.
Esporeou Manecão com vigor o cavalo e, levantando uma nuvem de poeira, desapareceu num abrir e fechar de olhos.
Nisto assomava um cavaleiro numa das voltas do caminho.
Era Antônio Cesário.
Vendo um homem estirado por terra apressou o passo.
— O doutor?! exclamou apeando-se rapidamente e todo horrorizado.
—Eu mesmo, respondeu Cirino com voz fraca. —Mas, quem lhe fez este dano, santo Deus?
E correndo para o moço ajoelhou-se junto dele e levantou-lhe o corpo.
—Quem foi o assassino?
—Ninguém, rouquejou o mísero, foi... destino... Morro contente... Dê-me água .. e fale-me de Inocência...
—Água? exclamou Cesário com desespero, aqui no meio do cerrado?... O córrego fica a três léguas pelo menos...
—Ah! replicou Cirino meio desvairado, se não há... com que estancar a sede do corpo... estanque a... da alma... Inocência... onde esta? quero vê-la... Diga-lhe que morri... por causa dela...
—Mas, quem o matou? bradou o mineiro.
—Não vale a pena dizê-lo, respondeu o mancebo entre gemidos. Cuide agora... só de mim... Olhe nunca fui mau... não tenho pecados .. grandes... Acha que Deus me... há de perdoar?
— Acho, respondeu Cesário com força ..
—Que fiz eu... na minha vida? Talvez... enganasse os outros... dizendo que era .. médico... Mas também curei alguns . De nada mais me recordo... Ah! Sim... uma divida de honra... Na minha carteira... há uns seiscentos mil-réis; pague... trezentos ao Totó Siqueira, da vila; de... cinqüenta mil-réis. a cada camarada... meu... o mais... distribua.. todo... pelos pobres, sobretudo... morféticos... depois das .. missas... que por mim... mandar... rezar... ouviu?... ouviu?
Baixar texto completo (.txt)TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.