Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Eu por mim dou testemunho de que no meu tempo ainda lá encontrei muitas vezes o atual Sr. Visconde de Abaeté, o velho Costa Ferreira, Barão de Pindaré (assíduo e espirituosíssimo conversador), o Senador Alencar, Sales Torres Homem, depois Visconde de Inhomirim, o Dr.
José de Assis, o Padre José Antônio de Caídas, que com o Ractikliff e outros fora condenado à morte em 1824, Teófilo Otoni e muitos outros.
Mas a data de 1848, em que ainda florescia no fundo de sua loja o Passos, prova que ele por firmeza de caráter e de idéias políticas não quebrara nem torcera com a experiência da adversidade; porque em 1842, tendo rebentado as revoltas liberais das províncias de São Paulo e de Minas Gerais, e sabendo o governo com reais e bons fundamentos que o principal foco da conspiração revolucionária estava no Rio de Janeiro, fez prender ao atual Sr. Visconde de Abaeté, a Sales Torres Homem, Dr. Meireles e outros, entre os quais o depois meu amigo Passos, que era em verdade incorrigível republicano de aspirações, ardentemente desejoso do triunfo daquelas revoltas; incapaz, porém, de fazer por elas sacrifícios que aproveitassem a causa que fora levada ao campo da ilegalidade e dos combates.
Ainda bem que por exceção individual um pouco menos violento e opressor o governo limitou-se a pôr o inofensivo Passos debaixo das vistas da política e o excluiu do número dos nobres proscritos de então.
Mas o Passos não se corrigiu!... em 1848 e ainda anos depois conheci-o, freqüentei-o, e sempre o apreciei inabalável em suas opiniões, com as quais morreu.
Como todos os homens, ele tinha predileção firmada em confiança. O varão predileto do Passos era o célebre e estimadíssimo estadista Limpo de Abreu, o atual Sr. Visconde de Abaeté.
Quando morreu, o Passos deixou em verba testamentária pequeno legado, mas grande prova de amizade antiga e profunda ao Sr. Visconde de Abaeté, o qual, aliás (sempre é bom dizê-lo), nem soubera, nem procurara saber se o seu amigo tinha feito ou não testamento.
O Passos foi verdadeiro exemplo de lealdade e de firmeza inabalável em suas idéias políticas, era rude e pertinaz republicano, que todavia fraternizava com os monarquistas liberais, sendolhe só impossível entender-se com os conservadores.
Se a sua agreste e velha mesa de pinho do fundo da loja falasse, diria coisas capazes de apagar crenças no ânimo do povo, e de confundir e de envergonhar não poucos varões ilustres.
Felizmente ninguém sabe onde pára a tradicional velha mesa de pinho, e que o soubesse alguém, a pobre mesa não poderia repetir os cantos de palinódia, e as escandalosas metamorfoses políticas que contrastaram com as protestações e juramentos de propaganda de constituinte e de republicanismo, que junto dela o Passos ouviu entusiasmado de 1849 em diante para morrer poucos anos depois ainda republicano, mas descrente e maldizendo dos seus republicanos mais ardentes, que se transformaram em dedicações sem limites da monarquia.
O Passos ganhava muito pouco na sua loja, e creio que só a mantinha como centro de reunião diária de amigos políticos, e porque não pagava aluguel da casa, que era de sua propriedade.
As desilusões políticas, o desgosto profundo que lhe causou o ver que alguns dos liberais e republicanos, em quem muito confiara, tinham quase de súbito desertado para os arraiais conservadores, levaram o Passos a pensar mais seriamente nos cuidados que exigiam as suas erisipelas, a fechar a loja e a vender a casa a M. Décap.
E ainda bem que ninguém pôde dizer ao velho Passos:
- Faites des perruques.
Quando M. Décap comprou a casa do nosso amigo Passos, já se achava estabelecido com a sua loja de modas, creio que no pavimento térreo da casa onde floresceu o Hotel Damiani; de modo que não foi preciso senão atravessar a rua, indo quase de um salto ocupar o seu teto próprio.
Que mudanças e que conquistas efetuadas em menos de um quarto de século!...
A loja de modas Notre Dame de Paris, que começou com uma porta e duas vidraças na antiga casa do Passos, tem hoje doze (contadas as portas e as vidraças) abrindo-se para a Rua do Ouvidor; as casinhas térreas transformaram-se em vistoso sobrado, cuja frontaria é iluminada na linha superior por numerosa série de bicos de gás.
E não pára aia história.
Não podendo (por ora) levar além suas conquistas à direita e à esquerda na Rua do Ouvidor, M.Décap avançou pelo fundo em direção à Sé Velha ou à Igreja do Rosário, e diante dela abriu saída de importância estratégica com uma fortaleza de portão de ferro. Finalmente (por ora), o insaciável conquistador acaba de realizar, com hábil marcha de flanco, novo aumento de domínios laterais, que abrem atrativa comunicação com a Praça de S. Francisco de Paula, para a qual apresenta gracioso chalet.
Em falta de espaço para jardins, o vasto sobrado da loja é um tecido de labirintos, onde os estranhos e curiosos importunos perder-se-ão sem achar fio da Ariadne.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.