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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

—É uma besta ! — resumiu com tedio Melchior, que antes do jantar parecera a Arthur tão cheio de bonhomia, e que agora, sob a acção do Collares e do cognac, tinha nas expressões e nas opiniões uma dureza irritada. — Alli tem você S. Carlos : chic, hein ?

Levou-o logo á bilheteira a comprar duas cadeiras « do lado do Rei » — o diabo do Saavedra não largava a cadeira do Secuto ! Em baixo, pediu ao « porteiro amigo D, a quem bateu familiarmente no hombro, o binoculo do só Mesquita ; apagou o charuto meio fumado, que guaydou a um canto, porque os tempos não estavam para desp ordicios » e tendo cofiado os bigodes — empurrou o batente verde.

Como esc?eveu, no dia seguinte, ao Rabecaz, Arthur ficou deslumbrado com S. Carlos : «a ma« gestosa architectura dos camarotes, a vastidão do palco, a soberba tribuna real e aquella socie dade elegante, silenciosa, escutando uma divina musica, é realmente, amigo Rabecaz, impres-

sionante ! »

Cantava-se a Africana, e o panno erguera-se para o segundo acto. Sentindo-se olhado, ao atravessar para a sua cadeira, Arthur, atarantado, com todo o sangue na face, ia pisando sujeitos indignados.

— Oh, senhores ! — exclamou alguem, torcendose furioso na cadeira.

Arthur, afflicto, nem poude pedir perdão e immovel na sua cadeira, com o chapéu nos joelhos, o espirito esmagado, pasmava para uma decoração de carcere, onde uma dama gorda, côr de cobre, barbaramente ornada, junto a um catre onde um homem dormia, balançava, cantando, urn leque de plumas. A sua voz calida, revibrante nos agudos, lasciva nas modulações doces, deu-lhe um arrepio d'emoção,

—É a Sassi — disse-lhe baixo Melchior. — Que lhe parece o theatro

Arthur fez apenas um movimento admirativo com as sobrancelhagr, Como Melchior disse depois, durante todo o acto esteve embatocado i). Os personagens, com os seus gestos melodramaticos, pareciam-lhe mover-se vagamente na instrumentaçã0 substancial e massiga, como n'uma atmosphera so-

nora de sonho. Olhava a decoração, as passadas selvagens de Nelusko, as duas columnaa do proscenio, tocadas d'alto a baixo d'um vivo de luz, os camarotes que lhe pareciam muito distantes, a pallidez dos rostos sob a luz do gaz, e sentia-se envolvido n'uma harmonia magnifica e incomprehensivel, em que por vezes seguia, durante um momento, meIodias delicadas que o tumulto da instrumentação bem depressa absorvia. A magnificencia orchestral, junto á riqueza social que gentia em redor, davamlhe uma vaga oppressão. Quando o panno desceu respirou com allivio !

— Vamos vêr o gado ! — disse logo Melchior, erguendo-se. Saudou em redor com a mão : — Olé, Visconde ! Viva, amigo Silva ! —e depois d'examinar rapidamente os camarotes, declarou com desdem que não estava ninguem decente — e que ia acabar o charutinho,

Intimidado pelo sussurro de vozes que se levantara na plateia, Arthur não se mexeu. Os seus olhos saciavam-se dos detalhes, sofregamente. E da alta disposição dos camarotes d'um tom rico e escuro, do lustre com fulgurações de pingentes, pondo na tonalidade sombria relevos claros de envernizados brancos e de dourados, da gravidade monarchica da tribuna, desdobrando a sua cortina de velludo côr de cereja entre as cariatides herculeas, dos Reis, das toilettes, das casacas dos homens, desprendia-se



(continua...)

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