Por Eça de Queirós (1900)
- Estava combinado virmos todos três. Até ele devia trazer uma dúzia de foguetes, para estalaraqui com o Hino... A reunião era ao pé da Ponte... Mas o animal não apareceu. Em todo o caso ficou avisado, avisadíssimo... E se não vier, é traidor.
- Bem, subam vocês! - gritou Gonçalo. - Eu num instante me visto. E, para aguçar o apetite,proponho um verniouth, depois uma volta pela quinta até ao pinhal!...
Imediatamente Videirinha, teso, empinando o violão, meteu pela rua larga da horta, recoberta de parreira; e atrás João Gouveia atirava os passos em cadência nobre, alçando o guarda-sol como um pendão. Quando Gonçalo entrou no quarto, berrando pelo Bento e por água quente - o Fado dos Ramires soava, em trinados heróicos, através do feijoal, por sob a janela aberta onde secava o lençol do banho. E eram as quadras preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande avô Rui Ramires, sulcando os mares de Mascate numa urca, encontra três fortes naus inglesas, e, do alto do seu castelo de proa, vestido de grã vermelha, com a mão no cinto de anta tauxiado de ouro e pedras, soberbamente as intima a que se rendam...
Todo alegre, a mão no cinto,
Junto da Signa Real,
Gritando as naus - "Amainai
Por El-Rei de Portugal..."
Gonçalo abotoava à pressa os suspensórios, retomara o canto glorificador - Todo alegre, a mão no cinto... Junto da Signa Real... - E, através do esforço esganiçado, pensava que com tal linha de avós, bem podia desprezar Oliveira e as suas Lousadas horrendas. Mas o trovão lento de Titó retumbou no corredor:
- Então esse Deputado de Vila-Clara?... Já está a vestir a farda?
Gonçalo correu à porta do quarto, radiante:
- Entra, Titó! Os deputados já não usam farda, homem! Mas se ativesse, com os diabos, ia hojefarda, e espadim e chapéu armado, para honrar hóspedes tão ilustres!
O outro avançara vagarosamente, com as mãos nas algibeiras da rabona de veludo cor de azeitona, o vasto chapéu braguês atirado para a nuca, desafogando a honesta face barbuda, vermelha de saúde e sol:
- Eu, por farda, queria dizer libré... Libré de lacaio.
- Ora essa!?
E o outro, mais retumbante:
- Pois o que vais tu ser, homem, senão um sujeito às ordens do S. Fulgêncio, do horrendo careca? Não lhe serves o chá, quando ele te mandar; mas, quando ele te mandar votar, votas! Ali, direitinho, às ordens! "Oh Ramires, vote lá!" E Ramires, zás, vota... E de escudeiro, homem, é de escudeiro de libré...
Gonçalo sacudiu os ombros, impaciente:
- Tu és uma criatura das selvas, lacustre, quase pré-histórica... Não entendes nada dasrealidades sociais!... Na sociedade não há princípios absolutos!...
Mas o Titó, imperturbável:
- E esse Cavaleiro? Também já é rapaz de talento? Também já governa bem o Distrito?
Então Gonçalo protestou, picado, com uma roseta forte na face. E quando negara ele ao André talento ou jeito de governar? Nunca! Só rira, gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa... E, de resto, o serviço do País exigia que por vezes se aliassem homens que nem partilhavam os mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!
- E enfim o Sr. Antônio Vilalobos, vem hoje um moralista muito terrível, um Catão com quem senão pode jantar!... Ora foi sempre o costume dos filósofos muito ríspidos fugir da sala do banquete, onde triunfa o devasso, e protestar comendo na cozinha!
Titó, serenamente, virou as costas majestosas.
- Onde vais, ó Titó?
- Para a cozinha!
E, como Gonçalo ria, Titó, junto da porta, girando como uma torre que gira, encarou o seu amigo:
- Sério, sério, Gonçalo! Eleição, reconciliação, submissão, e tu em Lisboa às cortesias ao S.Fulgêncio, e em Oliveira de braço dado com o André, tudo isso me parece que destoa... Mas enfim se a Rosa hoje se apurou, não aludamos mais a coisas tristes!
E Gonçalo bracejava, de novo protestava - quando o violão ressoou no corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o Fado recomeçou, mais meigo, mais glorificador:
- Velha Casa de Ramires, Honra e flor de Portugal!
VI
A casa do Cavaleiro em Corinde era uma edificação dos fins do século XVIII, sem elegância e sem arte, pintada de amarelo, lisa e vasta, com quatorze janelas de frente, quase ao meio duma quinta chá, toda de terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada nobreza, ao pátio da frente, ornado por dois tanques de mármore. Os jardins conservavam a abundância esplêndida de rosas que os tornara famosos - e lhes merecera em tempos do avó de André, o Desembargador Martinho, uma visita da Sra. D. Maria II. E dentro todas as salas reluziam de asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma parenta pobre do Cavaleiro, a Sra. D. Jesuína Rolim.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.