Por Visconde de Taunay (1872)
—Se este socavão não chegar para esconder minhas misérias... mudo-me para as bandas do Apa... Parece que vou morrer... sinto fogo dentro da cabeça...
E, vencido pela emoção, encostou a testa à mesa, deixando cair os braços.
Bateu-lhe Manecão no ombro.
—Que é isso, meu pai? animo! De que serve ser homem?... Olhe cara a cara a sua desgraça... que também é minha. Não o consola a certeza de que aquele homem brevemente...
—Sim, replicou Pereira levantando a cabeça e reparando que o anão se retirara, mas que faremos deste tico de gente, que sabe tudo ?
—Não o deixe sair mais de casa.
—Qual!... É que nem muçu. Quando a gente mal pensa, surge no Sucuriú e até no Corredor.
—Pois bem... Ficará sabendo que... um só piscar de olho... pode sair-lhe caro... muito caro.
—Então implorou Pereira, vá quanto antes limpar o meu paiol daquela gente vá... Se eu pudesse ainda dormir... esquecia um pouco, mas .
Com estas palavras retirou-se a custo o mineiro.
Incontinente foi Manecão despachar os camaradas de Cirino, os quais, pouco depois saiam com destino à casa do Leal.
Em seguida, montando o tropeiro a cavalo, partiu em carreira desapoderada para a Vila de Sant'Ana do Paranaíba, onde chegou alta noite.
CAPÍTULO XXX
DESENLACE
Estão contados os grãos de areia que compõem a minha vide. É aqui que devo tombar. É aqui que ela há de acabar.
(Shakespeare, Henrique V, Ato 1)
Eis que vi um cavalo amarelo, e quem o montava, era a morte.
(São João Apocalipse)
Durante três dias, foi Cirino rigorosamente espreitado pelo noivo de Inocência. Com a cautela própria dos seus hábitos esquivos, soube Manecão acompanhar-lhe todos os passos sem ser pressentido.
Assim notou que o rival montava a cavalo e ia até certo ponto da estrada como que esperar por alguém que não chegava. Na ida, mostrava impaciência e inquietação; na volta vinha melancólico e curvado sobre si mesmo, absorto em fundo meditar.
Ia o infeliz mancebo ao encontro de Cesário; mas este não aparecia.
Estava quase expirado o prazo combinado, e prestes a soar a hora do completo desengano.
Oh! se ele pudera!... Agarraria com forças de Josué esse Sol que lhe marcava os dias e o deixaria imóvel, até que o seu salvador se resolvesse a estender-lhe a mão.
E já ia findando a semana!...
Completo o círculo de horas, se Cesário não aparecesse, começava a imperar o juramento que dera, irrevogável, implacável!
—Matar-me-ei, dizia Cirino; ficarão sabendo que não menti às minhas palavras.
Nessa firme resolução saiu da vila; passou o Rio Paranaíba e, como costumava, caminhou pela estrada de São Francisco de Sales, talvez três léguas.
Contava pousar por aqueles sítios de modo que alongava o seu passeio.
Claro era o dia; lindo:
Por toda parte cantavam mil pássaros. Gritavam as gralhas nos cerrados; piavam as perdizes no relvoso chão.
Cirino ia multo agitado. Nada ouvia; os seus olhos, fitos sempre na frente, buscavam na estrada, ansiosos, o vulto de um cavaleiro.
Soou-lhe de repente aos ouvidos o tropel de um animal.
Alguém vinha a galope.
Seu coração pulsou que parecia ter entrado também a galopar.
Mas o som partia de detrás.
Sem dúvida, algum viajante vindo da vila.
Continuou Cirino na vagarosa marcha.
O estrupido vinha indicando carreira folgada e que breve consigo estaria emparelhando, quem extravagantemente em hora tão imprópria corria à desfilada.
O mancebo de nada cuidava, tanto que mal reparou que alguém a trote largo passara por perto de si, quase a rogar animal contra animal.
Dali a pouco, novo galope se fez ouvir.
Parecia que o mesmo cavaleiro havia dado de rédeas, cortando o rumo que levava.
Dessa vez, porém, Cirino acordou do letargo, esporeou vigorosamente a sua cavalgadura e... esbarrou com Manecão.
Instintivamente empalideceu. O outro estava também muito descorado.
Estacaram eles os animais e fitaram-se alguns minutos, de um lado com desconfiança e pasmo, de outro com mal concentrado furor.
—Patrício, interpelou por fim o capataz em tom provocador, que faz mecê por aqui?
—Eu? perguntou Cirino.
—Nhor-sim, mecê mesmo.
—É boa... viajo.
—Ah! viaja! replicou Manecão. Então é andejo?
—Andejo, não, contestou Cirino com força. Não sou nenhum bruto.
E por prevenção levantou a capa do coldre em que havia uma pistola, fazendo menção de a sacar.
—Não será andejo, continuou o capataz, mas então o que é? —Sou o que sou, não é da sua conta.
Contraiu-se o rosto de Manecão.
De um tranco chegou o cavalo bem junto a Cirino e disse-lhe em voz surda:
—É um ladrão... é um cachorro! .
A esse insulto, puxou Cirino a pistola.
—Mato-o já, bradou com violência se continua a destratar-me.
Sorriu-se o capataz com desprezo.
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.