Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Este capítulo saiu-me quase todo cheio de reminiscências políticas, de que, suponho-o, os meus leitores gostam menos do que de tradições de outro gênero.
Mas a Rua do Ouvidor é de todas as da cidade do Rio de Janeiro a mais leviana e a mais grave, a mais mentirosa e a mais verdadeira, a mais absurda e a mais profética rua política; rivaliza nesse ponto com a nossa Praça do Comércio, e, portanto, era de indeclinável dever meu registrar nestas Memórias as suas casas notáveis em relação à política.
CAPÍTULO 17
Como depois de saudar de antemão o termo da nossa viagem pela Rua do Ouvidor, paramos em frente da imensa loja de modas Notre Dame de Paris, encontramos nela compreendida a antiga e pequena casa célebre que foi loja de papel e de objetos de escritório do Passos, republicano inofensivo, mas inabalável, de cuja velha mesa de pinho na saleta do fundo ainda muita gente há de lembrar-se: como em seguida as recordações do Passos, trata-se por exceção da grande loja de modas composta de lojas confederadas com sala central, armazém no fundo, sobrado por cima, portas de entrada e de saída, aqui, ali, e acolá, e tudo de modo a tornar indispensável uma cana topográfica para uso dos fregueses, e a propósito conta-se a história ingênua de Alexandre e de Elvira, dois noivos namorados que andaram mais de uma hora perdidos um do outro na loja de modas Notre Dame de Paris. E com essa história põe-se o suspirado ponto final nas Memórias da Rua do Ouvidor.
Haja alegria!...
Hoje, sim, chega definitivamente a seu termo a nossa viagem pela Rua do Ouvidor.
Ainda em frente da casa do Visconde da Cachoeira e do atual Hotel Ravot ostenta-se conquistador de antigos humildes tetos o - armazém - ou bazar - ou loja lojíssima de modas denominada - Notre Dame de Paris.
Por exceção nas minhas abstenções de coisas e casas da atualidade, terei de contar uma história ingênua, de que foi teatro inocente essa loja lojíssima, que ainda ninguém calcula onde irá parar em suas conquistas ao norte, a sul, a leste e a oeste.
Agora lembrarei que a segunda porta e nos limites do segundo departament atual, e pouco mais de 20 anos assento ali inicial daquela Notre Dame de Paris, pouco antes era célebre pequena casa térrea de duas portas para a Rua do Ouvidor e de fundo muito limitado.
Desde anos antes de 1840 até depois de 1853, com certeza, essa casa térrea apresentava simples muito simples loja de papel e de objetos de escritório, e onde também se vendiam, com regular porcentagem, periódicos políticos, somente, porém, os do partido liberal.
Não sei bem donde provinha esse exclusivismo, se da intolerância do proprietário da loja, se da antipatia ou também da intolerância dos conservadores. É provável ou quase certo que as duas intolerâncias contribuíssem para o fato.
Era essa a célebre loja do Passos.
Homem cuja instrução se limitava à primária, mas de idéias claras e de caráter muito firme, o Passos era em política inofensiva republicano, mas ligado ao partido liberal que fez decretar a maioridade do Imperador.
Já avelhantado e sujeito a ataques erisipelatosos nas pernas e ainda assim de atividade e diligência notáveis, e de economia que levava à exageração o Passos, que morava no bairro da Glória, vinha todos os dias de manhã a pé para sua loja, da qual só se retirava à noite.
Havia quem se queixasse do Passos pelo zeloso cuidado com que ele guardava o que era seu, e pelas conseqüências da exageração da economia em transações, à que dificilmente se prestava, mas nunca houve pessoa alguma que pusesse em dúvida a fidelidade de suas contas.
Fora dos negócios, em que se impunha positivo e frio como a aritmética, o Passos era outro homem.
De mediana estatura, de cor morena, casca grossa, de olhos pequenos, de músculos faciais quase inertes e todavia de expressão fisionômica agradável, atrativa para os amigos, e em geral para os liberais conhecidos e pronunciados, o Passos teve sem o pensar nomeada que lhe ia custando cara.
Em política era de tolerância absolutamente ilimitada, mas só com os liberais: recebia, agradava, atraía os liberais de todos os matizes... somente porém os liberais.
Em frente da sua loja estava o balcão, até o qual eram admitidos todos os compradores de papel, de objetos de escritório e de periódicos liberais, todos, ainda mesmos os mais ardentes conservadores (dos quais aliás nenhum entrava na loja), mas do balcão para dentro o caso era muito diferente.
O fundo da loja era uma saleta modestíssima, pobre; no meio da saleta havia rude e velha mesa de pinho, mas em torno dessa mesa sentavam-se freqüentemente quase todos os dias, honrando a sociedade do Passos, muitos liberais pronunciados na imprensa e no parlamento, e alguns dos chefes do partido liberal.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.