Por Eça de Queirós (1925)
— Melhor que no HespanhoZ — acudiu Melchior — não é verdade ? Você, Arthur, o que devia era vir para cá para o Hotel. Aqui goza-se !
Meirinho disse com auctoridade :
— E para quem se quer relacionar, nada melhor.
Arthur já entrevira, com delicia, aquella possibilidade. E descendo para o quarto de Sarrotini, o tapete do corredor, o retinir d'uma campainha ele-
ctrica, um creado apressando-se com um taboleiro onde tilintavam louças, o som distante d'um piano, iam-no persuadindo tentadoramente. Que interessante seria, viver alli !
— Quem é o Sarrotini
—É o segundo baixo de S. Carlos — disse Melchior. — Grande pandego !
Abriram a porta do quarto, mas Melchior, avistando um sujeito de gaforina frizada, que fumava, languidamente estendido no sofá, não entrou : tinham d'ir a S. Carlos, não se podiam demorar,
Junto da porta, o Sarrotini, de jaquetão de veludilho sobre calças côr d'alecrim, grosso e vermelho, abraçou Melchior, a el ilustre periodista » ; apertou a cinta de Meirinho, dilecto amico » ; deu um shake-hands apaixonado a Arthur, fallando um italiano misturado d'hespanhol, verboso e jovial.
Arthur olhava curiosamente a saleta : varias pessoas conversavam animadamente, bebendo café ; em torno das luzes d'um piano aberto, havia uma imponderavel nevoa de fumo de charutos, e um sujeito d'oculos d'ouro preludiava, com o olhar errante no tecto ; sobre uma mesa estava uma rabeca, livros de musica enchiam uma poltrona, e de pé, com gestos vivos, um rapaz de fato claro, fallava violentamente : discutia-se Arte—e Arthur, enthusiasmado, ouvia os nomes de Courbet, Corot, .Delacroix . .
Mas houve um chui! E um moço paiiido, de buço claro, approximou-se do piano, ageitou os cabellos para traz das orelhas com um gesto dôce, fallou baixo ao pianista d'oculos d'ouro, e cerrando os olhos, com a cabeça inclinada, os labios entreabertos, cantou. Pela letra, Arthur reconheceu ser o duetto de Romeu e Julieta : era uma melodia d'uma adoração mystica e contemolativa, e a voz do moço pallido subia, n'uma supplicagão extactica, ao dizer :
Ce n'est pas l'alouette,
Non, ce n'est pas le jour;
C'est\le doux rossignol, confident de l'amour
Arthur escutava, encantado : parecia-lhe vêr no rythmo da musica dous braços tremulos elevaremse dos degraus d'uma escada de sêda para um balcão gothico, d'onde se debruça uma fórma branca,
emquanto o rouxinol canta nos massiços d'um antigo jardim
Mas Melchior, fechando a porta, travou-lhe do braço e foi-o levando pelo corredor, ainda deslumbrado d'aquella soirée de Litteratura e d'Arte, tão rapidamente entrevista.
— Aquillo é que é passar noites — disse elle.
— O amigo devia vir có para o Hotel — disse Meirinho,
Melchior insistia, achava que era melhor. E Ar thur, com um vago sonüo, antevia 80iréa comoaquella, cheias de conversas originaes, escutando musica, na preguiça enternecida das digestões ricase
— Talvez não haja quarto — lembrou, já seduzido.
— Ora essa ! — exclamou Meirinho.
E como o guarda-livros passava assobiando, chamou-o logo, levou-o para um canto, e, como se tratasse um negocio grave, fallou-lhe com ammacão : era um hospede a mais ; elle, o que queria, era que o Hotel prosperasse, hein ! E esperava que comprehendegsem que elle fazia tudo para chamar hospedes
O guarda-livros tinha justamente, no terceiro andar, a um quartinho a calhar E Melchior que se deleitava ó idéa de vir jantar repetidamente com Arthur, exclamou logo que o deviam ir vêr já, para dar o seu parecer
Era um quarto com estofos de reps azul e janella para a rua ; a mobilia, que á noite, á luz do gaz, lhe parecia ter um tom rico, tentava-o. Mas a despeza ! No emtanto, pensava que era indispensavel viver alli, para as suas relações litterarias . . p. Era mesmo habil ; depois, um artista devia estudai a vida, não nas suas pobrezas, as no seu luxo.
— Tem por vizinha a Baretti, a segunda Dama — disse o guarda-livros, piscando o olho.
— Rica mulher, caramba . — fez Melchior.
— Grande espertalhão — accrescentou.
E começou a explicar pozque não quizera entrar no quarto do Sarrotini : é que estava lá a besta do Guerreiro Mendes . . . Fazia-lhe mal aos nervos aquelle animal !
Arthur admirou-se : o Guerreiro Mendes ? O auctor da Margarida, um romance d'uma paixão tão intensa, á Werther ?
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.