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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

Mas agora? O quê? Manter rigidamente as suas relações com o Cavaleiro dentro da Política, evitando escorregadias intimidades que o tornassem logo nos Cunhais, como outrora na Torre, o conviva desejado? Como poderia? Desde que ele se reconciliava com André, logo e tão naturalmente como a sombra segue a inclinação do ramo, se reconciliava também o Barrolo, seu cunhado e sua sombra... Mas como impor ao Barrolo que a sua renovada familiaridade com o Cavaleiro se realizasse unicamente dentro da Política como dentro de um Lazareto? - "Eu sou outra vez o velho amigo do André, tu, Barrolo, também - mas nunca o convides para a tua mesa, nem lhe abras a tua porta!" - Imposição desconcertada, de dura impertinência - e que, na pequena Oliveira, logo os fáceis encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrolo, quebrariam como um barbante puído... E depois que grotesca atitude a sua, hirto diante do portão do Palacete, como um Arcanjo S. Miguel, de bengala de fogo na mão, para sustar a intrusão de Satanás, chefe do Distrito! Mas também que toda a cidade largasse a cochichar pelos cantos o nome de Gracinha embrulhado ao nome de André, com o nome dele, Gonçalo, emaranhado através como o fio favorável que os atara - era horrível.

E na impaciência desta dificuldade, de malhas tão ásperas, que tanto o feriam, terminou por esmurrar a mesa, revoltado:

- Irra, que maçada! São tudo maçadas, nestas terras pequenas e coscuvilheiras...

Em Lisboa quem se importaria que o Sr. Governador Civil passeasse num certo largo - e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Sr. Governador Civil?... Pois acabou! Romperia soberbamente para diante, como se habitasse Lisboa, desafogado de mexericos e de malignos olhinhos a cocar. Era Gonçalo Mendes Ramires, da Casa de Ramires! Mil anos de nome e de solar! Dominava bem acima de Oliveira, de todas as suas Lousadas. E não só pelo nome, louvado Deus, mas pelo espírito... O André era seu amigo, entrava em casa de sua irmã - e Oliveira que estourasse!

E nem consentiu que a suja carta das Lousadas desmanchasse a quieta manhã de trabalho para que se preparara desde o almoço, relendo trechos do Poemeto do tio Duarte, folheando artigos do Panorama sobre as guerras de muralhas no século XII. Com um esforço de atenção erudita abancou, mergulhou a pena no tinteiro de latão que servira a três gerações de Ramires. E enquanto repassava as tiras trabalhadas, nunca o Castelo de Santa Irenéia lhe parecera tão heróico, de tão soberana estatura, sobre tamanha colina de História, sobranceando o Reino, que em torno dele se alargava, se cobria de vilas e messes, pelo esforço dos seus castelões!

Temerosa, com efeito, se erguia a antiga Honra de Santa Irenéia, nessa Afonsina manhã de agosto e rijo sol, em que o pendão do Bastardo surgira, entre fulgidos de armas, para além dos arvoredos da Ribeira! Já por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas as bestas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu, fervendo nas cubas, para despejar sobre os homens de Baião que tentassem a escalada. O Adail corria pelas quadrelas, relembrando as traças de defesa, revistando os feixes de virotões, os pedreguIhos de arremesso. E no imenso terreiro, por entre os alpendres colmados, surdiam velhos solarengos, servos do forno, servos da abegoaria, que se benziam com terror, puxavam pelo saião de algum apressado homem de rolda, para saberem da hoste que avançava. No entanto a cavalgada passara a Ribeira sobre a rude ponte de pau - já, por entre os álamos, serenamente se acercava do Cruzeiro de granito, outrora erguido nos confins da Honra por Gonçalo Ramires, o Cortador.

E, no sossego da manhã abrasada, mais fundamente ressoaram as buzinas do Bastardo, e o seu toque lento e triste à mourisca...

Mas quando Gonçalo, enlevado no trabalho, tentava reproduzir, com termos bem sonoros, avidamente rebuscados no Dicionário de Sinônimos, o toar arrastado das buzinas de Baião sentiu realmente, do lado da Torre, um gemer de sons graves que crescia através dos limoeiros. Deteve a pena - e eis que o Fado dos Ramires se eleva ofertadamente da horta, em serenata, para a varanda florida de madressilva:

Ora, quem te vê solitária, Torre de Santa Irenéia...

O Videirinha! - Correu alvoroçadamente à janela. Um chapéu-coco tremulou entre os ramos, um brado estrugiu, aclamador:

- Viva o Deputado por Vila-Clara! Viva o ilustre Deputado Gonçalo Ramires!

No violão rompera triunfalmente o Hino da Carta. Videirinha, alçado na biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava - "Viva a ilustre Casa de Ramires!" E por baixo do chapéu-coco, sacudido com delírio, João Gouveia, sem poupar a garganta, urrava - 'Viva o ilustre Deputado por Vila-Clara! Viva!"

Majestosamente, Gonçalo, alagado de riso, estendeu da varanda o braço eloqüente:

- Obrigado, meus queridos concidadãos! Obrigado!... A honra que me fazeis, vindo assim, nesseformoso grupo, o chefe glorioso da Administração, o inspirado Farmacêutico, o...

Mas reparou... E o Titó?

- O Titó não veio?... Ó João Gouveia, você não avisou o Titó?

Repondo sobre a orelha o chapéu-coco, o Administrador, que arvorara uma gravata de cetim escarlate, declarou o Titó "um animal":

(continua...)

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