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#Romances#Literatura Brasileira

Inocência

Por Visconde de Taunay (1872)

Contou então às pressas Pereira todas as tentativas do alemão Meyer, tentativas que haviam sido descobertas, mas que infelizmente, pelo menos assim supunha, já haviam produzido os seus danosos frutos.

—Ah! disse por fim abaixando a voz, pensou aquele cachorro que tudo era namorar mulheres e depois dar com os pés em polvorosa, não é?... Amanhã mesmo eu lhe saio no rasto.

—Para quê? interrompeu Manecão.

—Respondam os urubus...

—Para matá-lo? —Sim...

Houve breve pausa.

—Não será, o senhor, disse o capataz, que lhe há de dar cabo da pele.

—Por quê?

—É negócio que me pertence. O senhor é pai.,. eu porém sou noivo.

Mangaram com os dois... mas o alamão fica no chão.

—Pois seja, concordou Pereira, parta amanhã mesmo ou hoje... agora, se possível for. Cão danado deve logo ser morto, para que a baba não dê raiva. Vá depressa e venha contar-me que aquele homem já não existe... Como velho, como pai... abençôo a mão que o há de matar. Cala o sangue que correr... sobre os meus cabelos brancos . . .

Havia toda esta conversa sido atentamente ouvida por alguém: o anão Tico.

Viera a pouco e pouco aproximando-se da mesa com os olhos a fulgir. De repente, colocou-se resolutamente entre Manecão e Pereira.

—Que quer você aqui? perguntou o mineiro com aspereza.

Começou então o homúnculo a explicar por gestos vagarosos, mas muito expressivos, que de tudo estava ciente, participando de todos os projetos e do mesmo sentimento de indignação e desespero que enchia os dois ofendidos.

Depois, apressando mais a gesticulação e por sons meio articulados, fez ver que Pereira laborava em engano, tão-somente quanto a pessoa.

Com multa propriedade de imitação e perfeita mímica, ora levantando o braço para caracterizar as fisionomias, tão exatamente representou Meyer e Cirino, que o mineiro logo os reconheceu.

—Bem sei, bem sei, Tico, murmurou ele. Você fala do doutor e daquele...

Ai o anão fez um gesto de negação e, apontando para o quarto de Inocência, indicou que nada tinha ela com o alemão. Ficaram pasmos os dois.

— Então, balbuciou Pereira, quem será?... Cirino, meu Deus?!

—Sim... Sim! gritou o anão com violento esforço abaixando muitas vezes a cabeça.

—Qual! protestou Pereira, o doutor?...

Com muita habilidade e segurança Tico desenvolveu as provas que tinha.

Gesticulou como um possesso; correu para fora de casa; denunciou as entrevistas; reproduziu ao vivo todas as passadas de Cirino; mostrou o lugar do laranjal donde vira tudo, o galho quebrado em razão da sua queda; repetiu o grito que dera; lembrou a cena da madrugada, findando com aqueles tiros; exprimiu-se por sinais tão adequados e tais movimentos de cabeça e fisionomia, que toda a dúvida desapareceu do espírito de Pereira.

Então tudo se lhe descortinou claro e deslumbrante, e sua cólera subiu a um grau de violência inexprimível.

Esteve a cair fulminado.

—Infame, murmurou roxo de ira, tu me pagas!

—Infame... Infame!

Depois voltando-se para Manecão:

—Dê-me esse... eu o quero...

Abanou o capataz a cabeça.

— Não, respondeu surdamente. Esse me pertence... Caçoou com o senhor... e fez de mim chacota.

—Então, disse apressadamente Pereira, parta hoje... parta já. E quando voltar, diga só: estamos desagravados... Inocência será sua...

Parando um pouco. concluiu tomado de enleio:

—Se quiser aceitá-la.

—Havemos de conversar.

Teve o mineiro uma explosão de desespero

—Meu Deus, exclamou com dor, em que mundo vivemos nos? Um homem entra na minha casa, come do que eu como, dorme debaixo do meu teto, bebe da água que carrego da fonte, esse homem chega aqui e, de uma morada de paz e de honra, faz um lugar de desordem e vergonha! Não, mil raios me partam!... Não quero mais saber que esse miserável respire o ar que respiro. Não! mil vezes, não! E desde já enxoto a canalhada que trouxe, gente do inferno como ele!... Hei de cuspir-lhes na cara... Pinchá-los fora como cães que são!... Ladrões! .. Eu... Interrompeu-o Manecão com calma:

—Não faça nada... E preciso que ninguém saiba do que se está passando aqui... Ninguém!... percebe?

—E então?

—Faça de conta que recebeu uma letra de Sant'Ana. O cujo foi quem a mandou, para que os camaradas o vão esperar no Leal... Ouviu?

Pereira fez sinal de tudo compreender.

—Depois, acrescentou Manecão com voz sinistra, mãos a obra.

—Você diz bem, retorquiu Pereira, tenha pena de mim... Estou com esta cabeça corno um cortiço de guaxupés... E um zumbido!... Mostre que já é dono desta casa e faça como entender... Entrego-me de pés e mãos atados a você... Tudo lhe pertence... Enquanto a honra do mineiro não for desafrontada... não levanto o rosto... Meu Deus, meu Deus, que vergonha! .

—Coragem, coragem, aconselhou o outro.

(continua...)

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