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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Quem não achar muito bonita esta conspiração antioficial, este generoso auxílio da maçonaria, é incapaz de compreender o belo na sociedade, e na vida dos homens.

A Chiquinha passou o resto daquela noite de despedida a chorar saudosa e tristemente; no outro dia ainda chorou; mas no seguinte recomeçou a rir e a cantar modinhas e lundus, como dantes.

Sina das que são Chiquinhas, como ela o era.

A devassa contra os supostos conspiradores e revolucionários continuou, e é triste lembrar que entre as testemunhas comprometedoras dos patriotas desterrados e de Joaquim Gonçalves Ledo se contaram companheiros dos mesmos na revolução gloriosa da Independência, e que uma dessas testemunhas da devassa foi o poeta Bernardo Avelino.

Quando cerca de dois anos depois Ledo voltou para o Rio de Janeiro, se ainda conservava lembranças da Chiquinha, teve o desgosto de não encontrá-la mais nem na Rua do Ouvidor, nem em alguma outra da cidade.

A bonita, mas pobre e infeliz rapariga, seguindo seu mísero destino, um dia batera as asas, e como não tinha de quem despedir-se, ninguém soube para onde ela voou.

A Chiquinha foi um pirilampo na Rua do Ouvidor.

Não sei bem determinar qual foi a pequena casa térrea onde morou o poeta Bernardo Avelino, e por isso não a indico.

De lado esquerdo da rua e perto do Largo hoje Praça de S. Francisco de Paula mostra-se o grande sobrado, que é desde muitos anos ocupado pelo Hotel Ravot.

Foi essa casa propriedade de José Luís de Carvalho e Melo e ainda o é de seu digno filho do mesmo nome e título nobiliário.

Luís José de Carvalho e Melo, deputado da Constituinte brasileira, Ministro dos Negócios Estrangeiros a 15 de novembro de 1823, conselheiro de Estado e um dos colaboradores e signatários do projeto da Constituição que foi jurada a 25 de março do ano seguinte, Visconde da Cachoeira e Senador do Império, foi jurisconsulto de alta reputação, magistrado probo e justo, e varão de muito merecimento e de virtudes.

Conservou-se no ministério com a pasta dos negócios estrangeiros até 1825 e faleceu em 1826.

De 15 de novembro de 1823 até sua morte o Visconde da Cachoeira sofreu quebra considerável de sua popularidade, porque o partido liberal do Brasil não lhe perdoou o ter entrado para o ministério três dias depois da dissolução da Constituinte (da qual fora membro distinto e muito considerado), tomando por esse fato manifesta responsabilidade daquele desastroso golpe de Estado.

Como o Visconde da Cachoeira também o Marquês de Caravelas (José Joaquim Carneiro de Campos) igualmente deputado da Constituinte, Conselheiro de Estado e colaborador do projeto da Constituição em 1823, ficou suspeito aos liberais que retiraram dele todas as suas simpatias e toda a confiança.

Entretanto eram ambos liberais moderados, notáveis e ilustrados pensadores, que após a dissolução da Constituinte provavelmente entenderam que o seu dever de patriotismo exigia deles o sacrifício da popularidade que gozavam, em proveito e no interesse da monarquia constitucional representativa, que fora e era o sistema de governo de suas idéias políticas.

A história começou já a fazer justiça aos varões ilustres maljulgados pelas paixões da época.

Em frente à casa do Visconde da Cachoeira, ou do Hotel Ravot, vê-se uma outra de duas portas e de dois pavimentos, atualmente ocupada por loja francesa de toilettes.

Foi nesse modesto ubi que se fundou em maio de 1869 a Reforma, órgão do partido liberal em oposição.

Como já ficou dito, Sabino Reis, finado este ano em Paris, foi o gerente e dedicadíssimo administrador da Reforma que lhe deveu sacrifícios de tempo, de atividade e de dinheiro.

Tenho saudades da primeira época daquele diário político liberal que iniciou na sua redação a prática generosa de ser cada artigo assinado pelo seu autor: nem uma só vez deu-se abuso ou dissimulo do próprio nome com o empréstimo de alheio; nem um só dos escritores liberais recuou jamais ante a responsabilidade das suas idéias e do seu esgrimir na polêmica séria, enérgica e às vezes ardente com os adversários. Estava também sistemática ou consequentemente assentado que, dada a hipótese de responsabilidade efetiva de qualquer artigo, o seu autor se apresentasse pronto a sujeitar-se à ação da lei.

Essa prática não pôde resistir por muito mais de ano à luta desigual com os anônimos da imprensa adversária. A Reforma seguiu seu caminho prestando serviços, como ainda presta, ao partido liberal, de que é órgão na imprensa; mas eu creio que ela não teria a influência que teve e tem entre os liberais do Império, se não rompesse logo em maio de 1869, ganhando incontestável força moral com os seus artigos todos assinados por escritores liberais, todos bem conhecidos e todos tomando a responsabilidade legal de suas idéias, e do modo ou da forma com que menos ou mais fervorosos as expunham e pregavam.

(continua...)

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