Por Eça de Queirós (1925)
Tornou-se então muito affavel com Arthur; Offereceu-lhe da sua agua Apollinaris para misturar com o vinho, deu-lhe noticias do cãozinho : tinha chegado optimo, fazia o regalo das meninas ! Era um amor q. — Depois, fallou de si. Havia muita verdade na local do Seculo : em geral era estimado, e a razão era esta : é que gostava d'obsequiar ! Não imaginava o snr. Corvello as encommendas que trouxera de Paris ! Vivia em Paris, modestamente, por. que não era rico , . . Bom Deus, longe d'isso ! Mas vinha de dons em dous annos a Lisboa. Paris, que deliciosa terriola, não é verdade Ah, tinha lá bons amigos ! Até o duque de Grammont lhe dizia sempre : JIerignô, cous êtes tout à fait des nôtres ! Ah, lá isso, era estimado . . . Mas, no fim, este cantinho do nosso Portugal era muito apreciavel. E depois, havia outra cousa : em Lisboa não soffria tanto de nevralgias
Fallava com uma voz baixa, affectuosa, acari ciando a sua bella barba clara, com a mão bem tratada, onde reluzia um brilhante ; tinha na sobre casaca a roseta da commenda de Carlos d'Hespanha. E era tão affavel que ao assado já dizia a Arthur .• — meu prezado amigo, meu bom compa nheiro de viagem !
Quiz saber se elle vivia em Lisboa.
— Não ? Ah, a provincia é muito apreciavel Ha muita bondade na nossa provincia, muita bondade. Eu, por exemplo . . .
Interrompeu-se para responder a um sujeito d'aspecto pomposo, bello rosto côr de cera e bigodes tão lustrosos que pareciam envernizados — que do outro lado da mesa lhe perguntava porque não fôra na terça-feira a casa de I). Joanna Coutinho :
— Não pude, meu bom Padilhão ! A snr. a Mar. queza não consentiu, positivamente não consentiu, Tinhamos uma deliciosa putida de manilha . . .
Pediu então detalhes da soirée : D. Frederico ralhára muito ao whist? Tinha estado a divina Viscondessinha de Lordello ? E tu que fizeste, Padi[hão
O individuo alteou o peitilho lustroso e muito decotado :
— Na terça-feira passada ? Oboé e Emilia das Neves. Gostaram muito.
— Conhece a D. Joanna Coutinho ? — perguntou Meirinho baixo a Arthur.
— Não.
Ah, pois era um salão adoravel. Excellente musica, lindas mulheres, dançava-se, recitava-se. Iam muitos estrangeiros.
— Deliciosas terças-feiras — disse com beatitude, cerrando os olhos.
Sob a influencia d'aquella intimidade e do jantar, Arthur acclimatava-se ; tinha mesmo perguntado, accentuando o seu d.esembaraço, a Carvalhosa :
— V. Ex. a não voltou a Coimbra ?
— O forçado livre não revisita as galés — respondeu Carvalhosa seccamente.
Arthur procurou inutilmente uma phrase pittoresca : não a achou, e, calado, começou a escutar aqui, além, curiosamente. As conversas interessavam-no prodigiosamente e nas palavras triviaeg, novas para elle, parecia entrever, sob as amplificações da imaginação, revelações d'existencias superiores. Uma discussão, ao alto da mesa, sobre a dissolução da Camara, cheia de nomes de ministros e de citações d'oradores, deu-lhe a admiração da Vida Politicas grandiosa pelo dominio dos fortes, pittoresca pelas
emoções da intriga e ennobrecida pelos idealismos da eloquencia. Sujeitog que fallavam pesadamente de Bancos, letras, fundos, corretagens, interessaram-no pela Vida Financeira, onde se revolvem milhões e o genio dos Nucingens, corno em Balzac, cria thesouros. Ao seu lado, uma questão sobre S. Carlos excitou o seu amor do theatro. Meirinho recomeçara a elogiar as terças-feiras de D. Joanna Coutinho e a vida so cial apparecia-lhe, com todo o romance dos amores aristocraticos, acompanhada de arias ao piano, em salas espelhadas, onde se movia graciosamente a gentil senhora do vestido de xadrez !
Que pouco tinha pensado n'ella, n'aquelle primeiro deslumbramento que lhe dera Lisboa ! De certo, muitos d'aquelles homens a conheciam, mas eram quasi todos de meia edade, de figuras fatigadas, com interesses positivos, e não sentia ciumes, na certeza de que nenhum a poderia interessar. E de todo aquelle cavaco ruidoso se desprendia para elle o indefinido conjuncto da vida de Lisboa, complexa, intensa, fortemente dramatica — onde. como sobre um fundo luminoso, se destacava a figura delicada da senhora do vestido de xadrez, que adorava agora, n'aquella dilatação da sensibilidade que lhe dava a excitação do jantar,
Tinha-se servido o café e uma vozearia erguia-se no fumo alvadio dos charutos. Com os cotovellos na mesa, em attitudes pesadas de fartura, sujeitos fallavam com intimidade ; ao fundo da sala, n'uma altercação aspera, um individuo de lunetas gritava, perguntando se o tomavam por tolo ; um homem de pelle córada, enfartado, arrotava tranquillamente ; o Padilhão queimava cognac no café, e o Melchior, excitado, discutia com o Visconde, com palavras muito cruas, as pernas da Vizenti, a primeira dangarina de S. Carlos.
Mas Meirinho erguera-se e indo bater no hombro de Melchior :
— Você quer vir cá a baixo ao quarto do Sarrotini ? E mais cá o amigo ! — accrescentou, dando palmadinhas no hombro d'Arthur.
— Prompto — exclamou Melchior. E de pé, puxando as calças, o charuto flammejante : — E d'aqui para S. Carlos, hein, Arthur Vae dia cheio' . —- chamou o creado : — Dá a conta a este senhor, ó Vicente ; depressa, hein ? Bom jantarzinho, Meirinho !
Arthur tambem achara o jantar excellente.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.