Por Eça de Queirós (1900)
E tomou um castiçal, subiu ao quarto verde com o Bento, sorrindo, abafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da porta, num desbotado canapé de damasco verde, a Rosa dobrara carinhosamente a roupa trapalhona do pequeno, o colete esgarçado, as calças enormes, só com um botão. Dentro o leito de pau-preto, vasto leito de cerimônia, atravancava a parede forrada dum velho papel aveludado de ramagens verdes. Ao lado dos dois postes torneados, à cabeceira, pendiam dois painéis, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando um fólio, um formoso Cavaleiro de Malta, de barba ruiva, apoiado à espada, com um laçarote de rendas sobre a couraça polida. E nos altos colchões o Manuelzinho ressonava, sem tosse, quieto, abatido pela grossura dos cobertores, umedecido por um suor fresco e sereno.
Gonçalo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a dobra do lençol. Desconfiado das janelas decrépitas, experimentou que não entrasse traiçoeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento buscar uma lamparina, que arranjou sobre o lavatório, com a luz esbatida por trás duma vasilha. Ainda atentamente relanceou os olhos lentos pelo quarto, para se assegurar do sossego, do silêncio, da penumbra, do conforto. E saiu, sempre na ponta dos pés, sorrindo, deixando o filho do Casco velado pelos dois nobres Ramires - o Bispo com o seu Tratado, o Cavaleiro de Malta com a sua pura espada.
Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passara a calma, depois do almoço, na frescura do arvoredo, entre sussurros de águas correntes, a folhear um volume do Panorama Gonçalo encontrou sobre a mesa da Livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o surpreendeu, enorme, em papel almaço, fechada por uma obréia. E dentro a assinatura, desenhada a tinta azul, era um coração chamejante.
Num relance devorou as linhas, pautadas a lápis, de uma letra gorda, arredondada com esmero: - "Caro e Exmo Sr. Gonçalo Ramires. O galante Governador Civil do Distrito, o nosso atiradiço André Cavaleiro, passeava agora constantemente por diante dos Cunhais, olhando com ternura para as janelas e para o honrado brasão dos Barrolos. Como não era natural que andasse a estudar a arquitetura do Palacete (que nada tem de notável), concluiu a gente séria que o digno Chefe do Distrito esperava que V. Exa. aparecesse a alguma das janelas do largo, ou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou sobretudo no mirante do jardim, para reatar com V. Exa. a antiga e quebrada amizade. Por isso muito acertadamente procedeu V Exa. em correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a reconciliação e abrir os braços generosos ao velho amigo, evitando assim que a primeira Autoridade do Distrito continuasse a esbanjar um tempo precioso naqueles passeios, de olhos pregados no Palacete dos fidalguíssimos Barrolos. Enviamos, portanto, a V. Exa. os nossos sinceros parabéns por esse acertado passo que deve calmar as impaciências do fogoso Cavaleiro e redondar em benefício dos serviços públicos!" Revirando o papel nas mãos, Gonçalo pensou:
- É das Lousadas!
Ainda estudou a letra, as expressões, descortinando que redundar fora escrito com um O, arquitectura sem C. E rasgou furiosamente a grossa folha, rosnando o silêncio da Livraria:
- Aquelas bêbedas!
Sim, era delas, das odiosas Lousadas! E essa origem mais o aterrava - porque maledicência, lançada por tão ardentes espalhadoras de maledicências, já certamente penetrara em todas as casas de Oliveira, mesmo na Cadeia, mesmo no Hospital! E agora a cidade divertida, lambendo o escândalo, relacionava perfidamente os rodeios do André pelos Cunhais com essa sua visita ao Governo Civil que assombrara a Arcada. Na idéia pois de Oliveira, e sob a inspiração das Lousadas - fora ele, ele, Gonçalo Mendes Ramires, que arrancara o Cavaleiro à sua Repartição, o conduzira serviçalmente ao largo de El-Rei, lhe escancarara as portas do Palacete até aí rondadas e miradas sem proveito, e com sereno descaro alcovitara os amores da irmã! Se tais desavergonhadas não mereciam que lhes arregaçassem as sujas saias no meio da praça, em manhã de Missa, e lhes fustigassem as nádegas meladas, furiosamente, até que o sangue ensopasse as lajes!...
E, para maior dano, as aparências todas se combinavam contra ele, traidoramente! Essa insistência de André, cocando Gracinha, estrondeando a calçada em torno do Palacete, crescera, impressionava, justamente agora, neste agosto, nas vésperas dessa sua aparição à janela do Governo Civil, que Oliveira comentava com um mistério histórico. Que inoportunamente morrera o animal do Sanches Lucena! Meses antes, nem mesmo a malícia das Lousadas ligaria a sua reconciliação com André a um cerco amoroso que não começara, ou não andava tão murmurado. Três ou quatro meses depois, André, sem esperança ante o Palacete inacessível, certamente findaria os seus giros pelo largo, de rosa ao peito! Mas não! infelizmente quando esse André, com maior estrépito, ronda a porta almejada - é que ele acode, e abraça o rondador, e lhe facilita a porta! E assim a maledicência das Lousadas encontrava uma base, a que todos na cidade podiam palpar a substância e a solidez, e sobre ela se erigia como Verdade Pública! Infames Lousadas!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.