Por Visconde de Taunay (1872)
Pressentia os choques que tinha de suportar, e robustecia a alma na meditação continua e firme de sua infelicidade.
Estava de joelhos diante da imagem de Nossa Senhora, quando a voz de seu pai a fez levantar.
—Nocência! chamava ele.
Rapidamente passou a pobrezinha a mão pelo rosto para apagar os vestígios de copioso pranto, e com passo quase seguro penetrou na sala.
Estavam Pereira e Manecão sentados junto à mesa. O anãozinho Tico aquecia-se aos pálidos raios de um Sol meio encoberto e, sentado à soleira da porta, brincava com umas palhinhas.
—Estou aqui, papai, disse Inocência em voz alta e um pouco trêmula.
Encarou-a Manecão com ar entre sombrio e apaixonado. Julgou dever dizer alguma coisa.
—Até que afinal a dona saiu do ninho... E que hoje o dia está de sol, não é?
A moça nada lhe respondeu; fitou-o com tanta insistência que o fez abaixar os olhos.
—Ela esteve doente, desculpou Pereira.
E voltando-se para a filha:
—Sente-se aqui bem perto de nós... O Manecão quer conversar com você em negócios particulares.
— Bem percebe ela, observou o desazado noivo intentando abrir o motivo para risos.
Inocência replicou em tom incisivo:
—Não percebo.
—Está se... fazendo de... engraçada, balbuciou Manecão. Pois já... se esqueceu... do que tratei com seu pai?... Parece que comeu muito queijo.
Com a mesma entoação e cortando-lhe a palavra retorquiu ela: —Não me lembro.
Houve uns minutos de silencio.
Acumulava-se a cólera no peito de Pereira; seus olhares irados Iam rápidos de Manecão à imprudente filha.
—Pois, se você não se lembra, disse ele de repente, eu cá não sou tão esquecido,
—Ora, recomeçou Manecão levantando-se e vindo recostar-se à beira da mesa para ficar mais chegado à moça, faz-se de enjoada a toa... o nosso casamento...
—Seu casamento? perguntou Inocência fingindo espanto.
—Sim...
—Mas com quem?
—Ué, exclamou Manecão, com quem há de ser... Com mecê...
Pereira fora-se tornando lívido de raiva.
O anão acompanhava toda essa cena com muita atenção Cintilavam seus olhinhos como diamantes pretos; seu corpo raquítico estremecia de impaciência e susto.
A resposta de Manecão, levantou-se rápida Inocência e, como que acastelando-se por detrás da sua cadeira, exclamou:
—Eu? .. Casar com o senhor?! Antes uma boa morte!... Não quero... não quero... Nunca... Nunca...
Manecão bambaleou.
Pereira quis por-se de pé, mas por instantes não pôde.
—Está doida, balbuciou, está doida.
E, segurando-se à mesa, ergueu-se terrível.
—Então, você não quer? perguntou com os queixos a bater de raiva. —Não, disse a moça com desespero, quero antes...
Não pode terminar.
O pai agarrara-a pela mão, obrigando-a a curvar-se toda.
Depois, com violento empurrão, arrojou-a longe, de encontro à parede.
Caiu a infeliz com abafado gemido e ficou estendida por terra amparando o peito com as mãos. Mortal palidez cobria-lhe as faces e de ligeira brecha que se abrira na testa deslizavam gotas de sangue Ia Pereira precipitar-se sobre ela como para esmagá-la debaixo dos pés, mas parou de repente e, levando as mãos ao rosto, ocultou as lágrimas que dos olhos lhe saltavam a flux.
Manecão não fizera o menor gesto. Extático assistira a toda essa dolorosa cena. A fisionomia estava impassível, mas, por dentro, seu coração era um vulcão.
Lúgubre silencio reinou por algum tempo naquela sala.
O anão chegara-se a Inocência, tomando-lhe uma das mãos: depois, a fizera sentar e, no meio de carinhos, mostrara-lhe por sinais a necessidade de retirar-se.
A custo pôde ela seguir aquele conselho. Quase de rastos e ajudada por Tico é que saiu da presença do pai e de seu perseguidor.
Nenhum movimento fizeram os dois para retê-la. Calados como estavam, deixaram-se ficar de pé, um ao lado do outro, ambos acabrunhados pela grandeza daquela desgraça.
Com frenesi cofiava Manecão o basto bigode.
Pereira tinha a cabeça pendida sobre o peito. Afinal, exclamou:
—É preciso que eu desembuche o que tenho cá dentro, senão estouro .. Quem for homem que seja... Manecão, Nocência para nós está perdida... para nós, porque um homem lhe deitou um mau-olhado . . .
—E que homem é esse? perguntou em tom surdo e ameaçador o outro.
—Agora vejo como tudo foi... Eu mesmo meti o diabo em casa... Estive alerta... mas o mal já caminhava.
—Mas, quem é ele? tornou a perguntar com impaciência Manecão.
—Um maldito! um infame, um estrangeiro que aqui esteve... Roubou-me o sossego que Deus me deu...
(continua...)
TAUNAY, Visconde de. Inocência. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=17500 . Acesso em: 28 fev. 2026.