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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Os Andradas voltaram ao governo armados de medidas extraordinárias, e logo ordenaram e fizeram efetuar a prisão de José Clemente Pereira, que fora o Presidente da Câmara Municipal a 9 de janeiro, no dia do Fico; de Nóbrega que tinha sido Ministro da Guerra no ministério dos mesmos Andradas; do Padre (depois cônego) Januário da Cunha Barbosa, companheiro de Ledo na redação do Reverbero e nos mais ingentes trabalhos para a independência da pátria.

Todos esses beneméritos foram deportados e provaram em França o pão do desterro.

Arbitrariamente condenado, como esses amigos políticos seus e maçons da mesma parcialidade, à prisão e ao desterro, Ledo escapou, escondendo-se às diligências da polícia do governo.

Como nestas Memórias não escrevo história política, deixo de parte o estudo e a apreciação destes lamentáveis fatos, que somente poderiam ter ficado bem e publicamente esclarecidos, se tivesse podido dar-se pública interpelação aos ministros, e ampla discussão parlamentar na maçonaria de 1822, de que eram membros influentíssimos aqueles desterrados e D. Pedro I, José Bonifácio, Martim Francisco, Ledo e todas as notabilidades da época.

Certo é que abriu-se devassa sobre conspiração e planos revolucionários dos varões ilustres já deportados, beneméritos da independência, que por isso e só por isso foram privados da glória de ser eleitos deputados à Constituinte brasileira, cabendo-lhes repetir lá de longe, da terra do desterro, o sic vos non vobis de Virgílio.

Mas eu disse acima que Ledo, homem habilíssimo e sagaz, logo a 31 de outubro, adivinhando imediata e arbitrária perseguição, eclipsara-se prudente e cauteloso, de modo que não houve empenho policial que pudesse conseguir apanhá-lo, posto que ele nem um só dia se tivesse arredado da cidade, e pelo contrário em não poucas noites ousasse sair a passeio, ou a mudar de hospedagem, tomando diversos disfarces.

Todavia não era possível a Ledo prolongar sem vexame e sem incômodo pessoal e comprometimento de amigos essa anômala situação de suspeito conspirador escondido e procurado, mas também ele não queria dar aos Andradas o gosto da sua prisão e do seu desterro forçado.

Ainda nisso andavam capricho e antagonismo de elementos maçônicos.

Tinha de sair do porto do Rio de Janeiro para Buenos Aires um navio pertencente a negociante que sem dúvida era filho da viúva, e nesse barco foi fraternalmente garantida a Ledo passagem segura para a República do Prata.

Mas de que modo poderia Ledo ir até a praia, embarcar em bote ou escaler, e recolher-se ao navio escapando à policia, que tomara a peito prendê-lo?...

Tomaram-se precauções; preparou-se tudo. Ledo, porém, que por mais de uma vez disfarçado se expusera, indo à noite ver a Chiquinha, quis a todo transe despedir-se dela na hora de sua partida.

Forçoso foi confiar o segredo da empresa à moça de costumes impuros e portanto menos digna de confiança em caso tão delicado.

Mas a Chiquinha desprezando apreensões de provável perseguição subseqüente, e mostrandose toda dedicada a Ledo, prestou-se fiel e exaltadamente ao plano de sua fuga.

Querem alguns que Joaquim Gonçalves Ledo tivesse saído de uma casa da Rua do Hospício disfarçado com hábito de frade franciscano, e que se dirigisse dali diretamente à praia para embarcar.

Que ele saiu de amiga e fraternal hospedagem na Rua do Hospício, é certo; tenho porém informações fidedignas de que foi da casa da Chiquinha que seguiu para o seu embarque, e bastando esse fato para assinalar imprudência, não creio que ele provocasse reparos e suspeitas entrando já vestido de frade na casa de má reputação.

Prefiro por isso esta outra versão.

Na aprazada noite, Ledo foi sob qualquer disfarce despedir-se da Chiquinha, objeto de sua apaixonada afeição em 1822, e ali no pequeno sobrado da Rua do Ouvidor chegada a hora da partida tomou o preparado hábito de frade franciscano (que lho perdoem os religiosos dessa ordem), imprimiu na face da Chiquinha seu último e fervoroso beijo, já nesse momento ainda mais fervoroso - beijo de frade - e partiu.

Também pretendem alguns que o ilustre perseguido político fora embarcar, disfarçando-se com vestidos de mulher; isso não é verossímil, não é; conheci pessoalmente Ledo; não era homem de alta estatura, mas representaria mulher gigantesca, excitadora de observações e de curiosidade importuna.

Ele incorreu no escândalo de sair simulado de frade da casa da Chiquinha.

E foi indo em direção ao mar, a descer vagaroso e grave pela Rua do Ouvidor.

Não houve quem disputasse o passo ao frade.

Aquele tempo não era o de hoje. Então o frade ainda era grande coisa, e o hábito franciscano ainda tinha o prestigio de S. Carlos, de Sampaio, de Montalverne e de outros luminares da tribuna sagrada.

E Ledo recebido em escaler, cujo improvisado patrão era um irmão que o esperava, foi levado para o navio mercante, onde ceou com alguns outros irmãos, e no dia seguinte saiu barra afora para Buenos Aires.

(continua...)

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