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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

mesas, com brilhos de vidros e de plaqués faiscando sob a luz crua dos lustres de gaz, os ramos de flores fazendo centro á ordenação das sobremesas, as pessoas bem vestidas que julgava illustres, as gravatas brancas dos creados, deram a Arthur um vivo deslumbramento, immobilisaram•no junto da porta, um pouco embaraçado, passando, com um gesto errante, os dedos pelo bigode. Mas Melchior, que se apossara de duas cadeiras ao pé d'um sujeito pallido, chamava-o, muito alto :

— Para aqui, amigo Arthur, ficamos aqui ao lado do Carvalhosa !

Ao adeantar.se, perturbado, com as palmas das mãos suadas, tropeçou n'um creado, que se voltou, furioso, e Melchior, immediatamente, apresentou-o ao snr. Carvalhosa, o illustre deputado.

— Eu conheci V. Ex.a em Coimbra — disse

Arthur com um esforço, córando,

Conhecera-o, quando Carvalhosa publicava meditações democraticas na Idéa, fazia discursos lyricos no theatro acaaemco e era iiiustre por vicios que lhe tinham deixado para sempre na face uma amarellidão d'hectico. No terceiro anno levara um R — e passara desde então a ser na Briosa o republicano mais ardente. Porém, nomeado deputado do governo por influencia d'um tio, apresentado em Lisboa a Pares do Reino, introduzido em algumas casas onde recitava, enthusiasmara-se peug

Instituições e concebera um respeito desmedido pela Monarchia. Tinha Ema gula immensa da pasta da Marinha — e fallava de papo sobre questões de politica, á porta da casa Havaneza, torcendo a ponta da pêra com os dedos queimados do cigarro. Era conhecido pelas suas imagens — safadas pelo uso de gerações, como velhos patacos do tempo do snr. D. João VI — e os jornaes faziam sempre preceder o seu nome do adjectivo inspirado !

Abaixou a cabeça a Arthur e fallou um momento a Melchior com condescendencia, como do alto d'uma nobre escadaria intellectual. Era da Provincia, vivia na Provincia e sentia-se bem, ao ouvil-o, que os proprietarios graves dos Arcos-de-Val-de-Vez deviam dizer d'elle na Assembleia, com admiração e desconfiança : — Grande cabeça, mas muito poeta !

— Então deixou Coimbra ? — perguntou elle a Arthur.

— Ha doas annos !

Melchior apressou-se a citar com verve :

Coimbra, terra d'encantos

Do Mondego alegre flÔr

Arthur terminou logo :

Venho pagar-te em meus cantos

Tributo d'antigo amor I

E o Carvalhosa emendou :

Venho pagar-te em escarros Tributo do meu rancor I

• — Bravo ! Bravo ! — exclamou Melchior com ruido. — Essa é das boas

Aquelle curto fragmento de dialogo, tambem pareceu a Arthur muito fino, muito da Capital, e recostou-se na cadeira, com uma satisfação commovida. Toda a sua vaidade se dilatava ao sentir-se alli, a uma mesa rica, entre individuos que suppunha personagens eminentes da Politica, das Letras ou da Finança ; todos os detalhes lhe agra-l davam— a luz forte do gaz, os molhos, a atten-t cão dos creados, os syphões, — mas movia os braços com um cuidado acanhado, como se receasse quebrar alguma cousa, observando-se, impondo-se modos delicados. A sua alegria foi completa, quando um sujeito que estava a seu lado e no qual não reparara, se voltou para elle e lhe disse com amabilidade :

— Então, mais descançadinho da sua jornada

Não o tinha reconhecido ! Era o sujeito do wa gon, que trazia um cãozinho no cesto. Fallaram das fadigas do comboio, do cão, da chuva no Entron camento. Então Melchior, reparando no dialogo, estendeu precipitadamente a mão por traz da cadeira d'Arthur, exclamando :

— Oh, João Meirinho, desculpe homem, não tinha dado por você :i

— Lá vi, lá vi ! — acudiu logo Meirinho, com o rosto nutrido, luzidio de reconhecimento. — Lá vi, muito boa noticia ! Todos gostaram muito. É d'amigo, é d'amigo. — E indicando Arthur : — Fomos companheiros de viagem.

Arthur, lembrado agora da noticia que vira compôr no Sccu!o, ficou todo alvoroçado com a amizade d'aquelle «ornamento do high-life», estimado em tantas capitaes da Europa. Julgou delicado dizer-lhe: — Eu tinha lido a noticia . e .

— Fazem-me o favor de me estimar, — disse Meirinho, enternecido — fazem-me o favor de me estimar !



(continua...)

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