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#Romances#Literatura Portuguesa

A ilustre Casa de Ramires

Por Eça de Queirós (1900)

O Bento, entreabrindo a porta do pátio, anunciava uma "aberta", o negrume a levantar. Gonçalo imediatamente apressou a volta aos Bravais:

- E não tenha medo, mulher. Vai um moço da quinta com uma lanterna, e um guarda-chuva para abrigar a pequena.. Escute! Vossemecê até podia levar uma capa de borracha!... O Bento, corre, desce a minha capa de borracha. A nova, a que comprei em Lisboa...

E quando o Bento trouxe o "impermeável" de longa romeira, o lançou por sobre os ombros da mulher, que o estofo rico intimidava, com o seu ruge-ruge de seda - foi na cozinha uma divertida risada. O pranto passara, como a chuva. Agora era uma visita amorável, findando num arranjo alegre de agasalhos. A Rosa apertava as mãos, banhada de gosto:

- Assim é que vossemecê fica uma bonita Madama, hem!... Se fosse de dia, olhe que se juntava gente!

A mulher sorria enfim, descoradamente, sem interesse:

- Ai! nem sei que pareço... Que avantesma!

Através do pátio, onde as acácias gotejavam docemente, Gonçalo acompanhou o rancho até a porta do pomar, gritando ainda - "Agasalhem bem a pequena!" - quando já a lanterna do moço se fundia na úmida espessura da noite acalmada. Depois, na cozinha, batendo contra as lajes as solas dos chinelos molhados, apalpou novamente o Manuelzinho, que adormecera num sono rouquejado, torcido sobre as costas da cadeira.

- Tem pouca febre... Mas precisa um suadouro forte. E, antes de o cobrirem bem, um leitequente, quase a ferver, com cognac... O que ele precisava, também, era esfregado a coco... Que porcaria de gente! Enfim fica para mais tarde, quando se curar... E agora, ó Rosa, mande acima alguma coisa para eu cear, coisa sólida, que não jantei, e o sarau foi tremendo!

Na livraria, depois de mudar os chinelos, descansar, Gonçalo escreveu ao Gouveia uma carta reclamando com comovida urgência a liberdade do Casco. E acrescentava: - "É o primeiro pedido que lhe faz o Deputado por Vila-Clara (cumprimente!), porque acabo de receber telegrama do nosso André, anunciando que 'tudo feito, ministro concorda, etc.'. De sorte que precisamos comunicar! Queira pois Vossa Mercê vir jantar amanhã a esta sua Torre, à sombra do Titó e com acompanhamento de Videirinha. Estes dois beneméritos são indispensáveis para que haja apetite e harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me evitar a remessa de circulares eloqüentes..."

Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscito da Novela. E, trincando a rama da pena, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval, para aquele lance em que o Vílico e as roldas enxergavam a cavalgada do Bastardo, pela encosta da Ribeira, com refulgidos de armas, sob o rijo sol de agosto...

Mas a sua imaginação, desde a carta escrita ao Gouveia pelo "Deputado de Vila-Clara", escapava desassossegadamente da velha Honra de Santa Irenéia - esvoaçava teimosamente para os lados de Lisboa, da Lisboa do S. Fulgêncio. E o eirado da torre albarrã, onde o gordo Ordonho gritava esbaforido - incessantemente se desfazia como névoa mole, para sobre ele surgir, apetitoso e mais interessante, um quarto do Hotel Bragança com varanda sobre o Tejo... Foi um alivio quando o Bento o apressou para a ceia. E à mesa espalhou livremente a imaginação por Lisboa, pelos corredores de S. Carlos, por sob as árvores da avenida, através dos antiquados palácios dos seus parentes em S. Vicente e na Graça, através das salas mais modernas de cultos e alegres amigos - parando às vezes diante de visões que considerava com um riso deleitado e mudo. Alugaria aos meses, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as sessões de S. Bento sempre luvas cor de pérola, uma flor no peito. Por comodidade levava o Bento, bem apurado, com casaca nova...

O Bento entrou com a garrafa do cognac numa salva. Dera a carta ao Joaquim da Horta, com a recomendação de correr logo às seis horas à casa do Sr. Administrador, de se demorar na Vila por diante da Cadeia até soltarem o Casco.

- E já deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de mim, que tenho o sono leve, se eleberrar... Mas já dorme regaladamente.

- Está sossegado, hem? - acudiu Gonçalo, sorvendo à pressa o cálice de cognac. - Vamos ver esse cavalheiro!

(continua...)

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