Por Camilo Castelo Branco (1864)
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Aproximámo-mos do formoso grupo. Apeei: fui cortejar a mulher do amor de salvação e disse-lhe, comovido e creio mesmo que lagrimoso:
- Ao cabo de dez anos de felicidade não interrompida, minha senhora, chegou um homem a casa de V. Exª com o funesto contágio da sua má estrela! Fui eu quem primeiro ousou usurpar-lhe a convivência de seu esposo por uma noite. Deus sabe se a saudosa prima de Afonso de Teive cerrou olhos nesta infinda noite de Dezembro!...
- Também eu não! - atalhou Afonso sorrindo -, também eu não!
- Não importa, minha senhora - tomei eu. - Seu marido velava; mas que saborosa vigília! Contou-me as suas desgraças para que eu pudesse cabalmente ajuizar da felicidade perene que V. Exª, depositária dos infinitos bens do Senhor, lhe preparou com santas lágrimas e lhe está dando com santas alegrias. Eu cuidava que o contentamento de uma hora, neste mundo, era uma usurpação feita ao Céu!... Agora sei que há sobre a Terra um homem feliz há dez anos, feliz para uma longa existência. Este gozo, que nem contado pelos evangelistas eu acreditaria, sei agora que existe, abaixo do reino dos justos, entre os homens, no mundo de 1863, no AMOR DE SALVAÇÃO!
Mafalda baixou levemente a cabeça com gracioso acanhamento e disse:
- Não sou eu sozinha a felicitar meu primo: são as orações de nossas mães e o amor angélico dos nossos filhinhos.
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SOBRE O AUTOR E SUA OBRA
Camilo Castelo Branco
Nascido em Lisboa em 1825, Camilo ficou órfão de mãe aos dois anos e de pai aos dez, passando a ser criado por uma tia e uma irmã. Aos 16 anos casou-se com Joaquina Pereira e, dois anos depois, em 1843, matricula-se na Faculdade de
Medicina, porém, não conclui o curso. A partir de 1848, passa a viver do jornalismo e a freqüentar a boêmia.
Quando completa 21 anos, rapta Patrícia Emília e vai viver com ela na cidade do Porto. Logo depois é acusado e preso por bigamia. Depois de conseguir a liberdade,
Camilo tem alguns amores passageiros até encontrar, por volta de 1824, Ana Plácido, a " mulher de sua vida ". Essa nova relação amorosa, no entanto, não é nada tranqüila, uma vez que Ana é casada com Pinheiro Alves, um rico comerciante local.
Casou-se, pela primeira vez, aos 16 anos, com Joaquina Pereira, de 15 anos, que abandonou. Seguiu para o Porto, onde se tornou estudante de Medicina.
Em 1850, conheceu Ana Plácido, o grande amor de sua vida, que se casou com Manuel Pinheiro Alves, por arranjo de família. Deprimido, ingressou num seminário, onde vive um caso amoroso com uma freira. Nesse meio tempo, publicou sua primeira novela, Anatema (1851).
Em 1858, depois de passaruma temporada nômade, completamente ao sabor de emoções, retomou o contato com Ana Plácido, então mãe de um garoto. No mesmo ano, os dois passam a viver juntos para serem presos dois anos depois, como adúlteros. Durante a prisão - uma ano e 15 dias -, escreveu Amor de Perdição.
Para manter a família, Camilo trabalhou demais nas atividades literárias, isto em um tempo que se publicava folhetins (que seriam muito semelhantes hoje aos capítulos televisivos das novelas atuais)_ é visual na enormidade e variedade dos trabalhos de Camilo, que demonstram muito bem o anterior dito. Famoso escritor em sua terra e tempo; em muitas de suas obras nota-se o erudito, porém em outras o gosto popular e a trama folhetinesca recebem notório acento (muitas delas feitas apressadamente sem qualquer outro interesse que não o financeiro ).
O excesso de trabalho, as dificuldades financeiras, os problemas domésticos e a doença (sífilis) que o tornou cego, levaram-no ao suicídio, com tiro de revólver em 1890.
Algumas obras:
Baixar texto completo (.txt)CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.