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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Entre os comparsas de Gonçalo havia um que, além de ser seu particular amigo, era o único que ousava rivalizar com ele em força e destreza. Era um rapaz por nome Reinaldo, robusto e bem-feito, e geralmente estimado por sua franqueza e lealdade, e que ainda não se tinha deixado inteiramente eivar do espírito de desordem e devassidão dos seus companheiros. Nos exercícios de luta, esgrima e outros era o que dava mais trabalho a Gonçalo, e por vezes acontecia ficar indecisa a vitória. Como era ainda muito moço tinha esperança de uma dia igualar, senão exceder a seu amigo em vigor e agilidade. Os companheiros o aplaudiam e animavam de propósito para humilhar a Gonçalo, cujo orgulho interiormente desejavam ver abatido. Isto fazia espumar de raiva a Gonçalo. Nesses momentos todo o sentimento de amizade desaparecia de seu coração, e não poucas vezes suas lutas e exercícios se teriam transformado em cenas de sangue e morte, se não interviessem os amigos de ambos. Gonçalo tinha bom coração e era excelente amigo, mas prezava acima de tudo a sua reputação de valentia. Esta singular mania encheu-lhe de trabalhos e infortúnios o caminho da vida.

CAPÍTULO II

O BATUQUE

Era um domingo. Por uma bela noite de luar, um desses batuques animados e estrondosos, que são tão comuns nas povoações do sertão, fazia retroar um dos mais retirados e silenciosos bairros de Vila Boa. O chão tremia aos frenéticos sapateados dos dançadores; o rumor das violas, dos pandeiros, dos adufos, as palmas compassadas, as cantigas esgueladas retumbavam ao longe das margens do Rio Vermelho, e iam perder-se em sons confusos pelas quebradas das montanhas vizinhas.

Todo esse rumor e vozerias partiam de uma casa térrea, porém espaçosa, propriedade de mestre Mateus, velho caboclo, ferreiro de nomeada, o qual nessa noite reunia em sua casa a mais luzida rapaziada da vila e da roça, e as mais bonitas raparigas do lugar, a fim de festejar com batuque e folgança os anos de uma de suas filhas, para o que tinha obtido licença expressa do juiz ordinário. Mestre Mateus era um bom velho, de costumes pacíficos, benquisto, alegre e amigo de folgar. Nada havia pois de recear de um tal folguedo, sendo feito em sua casa, que nunca foi teatro de desordens.

Em uma grande sala alumiada por algumas candeias de ferro espetadas nas paredes, e cuja mobília consistia em bancos, tamboretes, caixas, catres e cepos semeados em desordens em roda da sala, estava a grande roda dos dançadores.

Eram guapos rapagões em trajos domingueiros, porém muito à fresca em razão do imenso calor que faz naquela terra, uns em mangas de camisa, outros descalços, porém todos de chapéu na cabeça, cigarros na boca ou na orelha, e uma comprida faca na cintura.

Quanto às raparigas, como sempre se nota nesses folguedos, havia grande variedade de cores e de figuras. Ao par de uma branca de longos cabelos castanhos ou louros sapateava a crioula de trunfa encarapinhada; junto de uma Megera desgrenhada e titubiante linda mulata de olhos úmidos e lascivos se bambaleava airosamente enfunando as amplas saias de seu vestido branco ou cor-de-rosa. Entre muitas papudas, feias e desenxabidas viam-se algumas bonitas e roliças caboclas, cor de rola, de cabelo negro e corrido, e de olhos brilhantes como carbúnculos. Brilhava-lhes com profusão no pescoço o fino ouro extraído das ricas minas de Goiás, em rosários, cordões, caixilhos, medalhas que lhes ocultavam quase completamente o seio.

A aguardente de cana e outros licores circulavam com abundância à discrição dos convivas.

Uns a tomavam simples, ou da lisa, conforme a expressão do país; outros preferiam a assada, isto é, aguardente queimada com açúcar. As cabeças se atordoavam de mais a mais, o batuque fervia cada vez mais animado, e os heróis da festa nessa dança doida e vertiginosa ensopavam as camisas exalando pelos poros toda a cachaça que bebiam.

Entre as raparigas, que lá se achavam, havia uma que pelo seu garbo e formosura era o desassossego de todos os corações, e o alvo de todos os desejos. Era uma moreninha de dezessete a dezoito anos, travessa e viva como uma lontra, bonita como seria difícil encontrar outra igual, mas louca e leviana como uma criança. Tinha por nome Maria, que a gente da família e depois também o povo trocou pelo apelido de Maroca, pelo qual era geralmente conhecida.

Todos ardiam por obter um sorriso, um olhar, um pequeno sinal de preferência daquela encantadora menina; porém nenhum ousava declarar-lhe seus sentimentos, nem requestá-la mui abertamente, porque todos sabiam que Reinaldo, o amigo de Gonçalo, que a tinha em casa em sua companhia, a amava extremosamente. Ora Reinaldo, que era respeitado e estimado de todos, era além disso ciumento como um tigre, e tinha a dupla vantagem de ser o amigo e o único rival de Gonçalo. Eram motivos de sobejo para que ninguém nem de leve ousasse tocar-lhe na corda a mais sensível do coração. Portanto os convivas a tratavam com certo constrangimento e reserva, o que fazia que ela tomasse parte pouco ativa na dança.

(continua...)

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