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#Elegias#Literatura Brasileira

Canto da Solidão

Por Bernardo Guimarães (1865)

A prole de Eva o Éden que perdera!

II

Olha : – qual vasto manto que flutua

Sobre os ombros da terra, ondeia a selva,

E ora surdo murmúrio ao céu levanta,

Qual prece humilde, que no ar se perde,

Ora açoutada dos tufões revoltos,

Ruge, sibila, sacudindo a grenha

Qual hórrida bacante : – ali despenha-se

Pelo dorso do monte alva cascata,

Que, de alcantis enormes debruçada,

Em argentea espadana ao longe brilha,

Qual longo véu de neve, que esvoaça,

Pendente aos ombros de formosa virgem,

E já, descendo a colear nos vales,

As plagas fertiliza, e as sombras peja

D'almo frescor, e plácidos murmúrios...

Ali campinas, róseos horizontes,

Límpidas veias, onde o sol tremula,

Como em dourada escama refletindo

Flóreas balsas, colinas vicejantes,

Toucadas de palmeiras graciosas,

Que em céu límpido e claro balanceiam

A coma verde-escura. – Além montanhas,

Eternos cofres d'ouro e pedraria,

Coroados de píncaros rugosos,

Que se embebem no azul do firmamento!

Ou se te apraz, desçamos nesse vale,

Manso asilo de sombras e mistério,

Cuja mudez talvez jamais quebrara

Humano passo revolvendo as folhas,

E que nunca escutou mais que os arrulhos

Da casta pomba, e o soluçar da fonte...

Onde se cuida ouvir, entre os suspiros

Da folha que estremece, os ais carpidos

Dos manes do Indiano, que inda chora

O doce Éden que os brancos lhe roubaram!...

Que é feito pois dessas guerreiras tribos,

Que outrora estes desertos animavam?

Onde foi esse povo inquieto e rude,

De bronzea cor, de torva catadura,

Com seus cantos selváticos de guerra

Restrugindo no fundo dos desertos,

A cujos sons medonhos a pantera

Em seu covil de susto estremecia?

Oh! floresta – que é feito de teus filhos?

Dorme em silêncio o eco das montanhas,

Sem que o acorde mais o rude acento

Das guerreiras inúbias : – nem nas sombras

Seminua, do bosque a ingênua filha

Na preguiçosa rede se embalança.

Calaram-se para sempre nessas grutas

Os proféticos cantos do piaga;

Nem mais o vale vê esses caudilhos,

Seus cocar na fronte balançando,

Por entre o fumo espesso das fogueiras,

Com sombrio lentor tecer, cantando,

Essas solenes e sinistras danças,

Que o festim da vingança precediam.....

Por esses ermos não vereis pirâmides

Nem mármores, nem bronzes, que assinalem

Nas eras do porvir feitos de glória;

Da natureza os filhos não sabiam

Aos céus erguer soberbos monumentos,

E nem perpetuar do bardo os cantos,

Que celebram façanhas do guerreiro,

– Esses fanais, que acende a mão do gênio,

E vão no mar infindo das idades

Alumiando as trevas do passado.

Seus insepultos ossos alvejando

Aqui e além nos solitários campos,

Rotos tacapes, ressequidos crânios,

Que estalam sob os pés de errante gado,

As tabas em ruína, e os mal extintos

Vestígios das ocaras, onde o sangue

Do vencido corria em largo jorro

Entre as pocemas de feroz vingança,

Eis as relíquias que recordam feitos

Do forte lidador da rude selva.

De virgem mata a sussurrante cúpula,

Ou gruta escura, disputada às feras,

Ou frágil taba, num momento erguida,

Desfeita no outro dia, eram bastantes

Para abrigar o filho do deserto;

No carcás bem provido repousavam

De todo o seu porvir as esperanças,

Que suas eram da floresta as aves,

E nem lhes nega o córrego do vale,

Límpido jorro que lhe estanque a sede.

No sol, fonte de luz e de beleza,

Viam seu Deus, prostrados o adoravam,

Na terra a mãe, que os nutre com seus frutos,

Sua única lei – na liberdade.

Oh! floresta, que é feito de teus filhos?

Esta mudez profunda dos desertos

Um crime – bem atroz! – nos denuncia.

O extermínio, o cativeiro, a morte

Para sempre varreu de sobre a terra

Essa mísera raça, – nem ficou-lhes

Um canto ao menos, onde em paz morressem!

Como cinza, que os euros arrebatam,

Se esvaeceram, – e do tempo a destra

Seus nomes mergulho no esquecimento.

Mas tu, ó musa, que piedosa choras,

Curvada sobre a urna do passado,

Tu, que jamais negaste ao infortúnio

Um canto expiatório, eia, consola

Do pobre Indiano os erradios manes,

E sobre a inglória cinza dos proscritos

Com teus cantos ao menos uma lágrima

Faze correr de compaixão tardia.

(continua...)

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