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#Comédias#Literatura Brasileira

Não consultes médico

Por Machado de Assis (1876)

CAVALCANTE — Não se incomode; falar-lhe-ei logo. Saberá por acaso se a senhora sua mãe conhece algum cardeal em Roma?

D. CARLOTA — Não sei, não senhor.

CAVALCANTE — Queria pedir-lhe uma carta de apresentação; voltarei mais tarde. (Corteja, sai e pára.) Ah! aproveito a ocasião para lhe perguntar ainda uma vez em que é que a ofendi?

D. CARLOTA — O senhor nunca me ofendeu...

CAVALCANTE — Certamente que não; mas ainda há pouco, falando-lhe de um tio meu, que morreu no Paraguai, tio João Pedro, capitão de engenharia...

D. CARLOTA, atalhando — Por que é que o senhor quer ser apresentado a um cardeal?

CAVALCANTE — Bem respondido! Confesso que fui indiscreto com a minha pergunta. Já há de saber que eu tenho distrações repentinas, e quando não caio no ridículo, como hoje de manhã, caio na indiscrição. São segredos mais graves que os seus. É feliz, é bonita, pode contar com o futuro, enquanto que eu... Mas eu não quero aborrecê-la. O meu caso há de andar em romances. (Indicando o livro que ela tem na mão.) Talvez nesse.

D. CARLOTA — Não é romance. (Dá-lhe o livro.)

CAVALCANTE — Não? (Lê o título) Como? Está estudando a Grécia?

D. CARLOTA — Estou.

CAVALCANTE — Vai para lá?

D. CARLOTA — Vou, com prima Adelaide.

CAVALCANTE — Viagem de recreio, ou vai tratar-se?

D. CARLOTA — Deixe-me ir chamar mamãe.

CAVALCANTE — Perdoe-me ainda uma vez; fui indiscreto, retiro-me. (Dá alguns passos para sair.)

D. CARLOTA — Doutor! (Cavalcante pára.) Não se zangue comigo, sou um pouco tonta, o senhor é bom...

CAVALCANTE, descendo — Não diga que sou bom; os infelizes são apenas infelizes. A bondade é toda sua. Há poucos dias que nos conhecemos, e já nos zangamos, por minha causa. Não proteste; a causa é a minha moléstia.

D. CARLOTA — O senhor está doente?

CAVALCANTE — Mortalmente.

D. CARLOTA — Não diga isso!

CAVALCANTE — Ou gravemente, se prefere.

D. CARLOTA — Ainda é muito. E que moléstia é?

CAVALCANTE — Quanto ao nome, não há acordo: loucura, espírito romanesco e muitos outros. Alguns dizem que é amor. Olhe, está outra vez aborrecida comigo!

D. CARLOTA — Oh! não, não, não. (Procurando rir.) É o contrário; estou até muito alegre. Diz-me então que está doente, louco...

CAVALCANTE — Louco de amor, é o que alguns dizem. Os autores divergem. Eu prefiro amor, por ser mais bonito, mas a moléstia, qualquer que seja a causa, é cruel e terrível. Não pode compreender este imbroglio6; peça a Deus que a conserve nessa boa e feliz ignorância. Porque é que está me olhando assim? Quer talvez saber...

D. CARLOTA — Não, não quero saber nada.

6 Confusão, em italiano.

CAVALCANTE — Não é crime ser curiosa.

D. CARLOTA — Seja ou não loucura, não quero ouvir histórias como a sua.

CAVALCANTE — Já sabe qual é?

D. CARLOTA — Não.

CAVALCANTE — Não tenho o direito de interrogá-la; mas há já dez minutos que estamos neste gabinete, falando de coisas bem esquisitas para duas pessoas que apenas se conhecem.

D. CARLOTA, estendendo-lhe a mão — Até logo.

CAVALCANTE — A sua mão está fria. Não se vá ainda embora; hão de achá-la agitada. Sossegue um pouco, sente-se. (Carlota senta-se.) Eu retiro-me.

D. CARLOTA — Passe bem.

CAVALCANTE — Até logo.

D. CARLOTA — Volta logo?

CAVALCANTE — Não, não volto mais; queria enganá-la.

D. CARLOTA — Enganar-me por quê?

CAVALCANTE — Porque já fui enganado uma vez. Ouça-me; são duas palavras. Eu gostava muito de uma moça que tinha a sua beleza, e ela casou com outro. Eis a minha moléstia.

D. CARLOTA, erguendo-se — Como assim?

CAVALCANTE — É verdade; casou com outro.

D. CARLOTA indignada — Que ação vil!

CAVALCANTE — Não acha?

D. CARLOTA — E ela gostava do senhor?

CAVALCANTE — Aparentemente; mas, depois vi que eu não era mais que um passatempo.

D. CARLOTA, animando-se aos pouco — Um passatempo! Fazia-lhe juramentos, dizia-lhe que o senhor era a sua única ambição, o seu verdadeiro Deus, parecia orgulhosa em contemplá-lo por horas infinitas, dizia-lhe tudo, tudo, umas coisas que pareciam cair do céu, e suspirava...

CAVALCANTE — Sim, suspirava, mas...

D. CARLOTA, muito animada — Um dia abandonou-o, sem uma só palavra de saudade nem de consolação, fugiu e foi casar com uma viúva espanhola!

CAVALCANTE, espantado — Uma viúva espanhola!

D. CARLOTA — Ah! tem muita razão em estar doente!

CAVALCANTE — Mas que viúva espanhola é essa de que me fala?

D. CARLOTA, caindo em si — Eu falei-lhe de uma viúva espanhola?

CAVALCANTE — Falou.

D. CARLOTA — Foi engano... Adeus, senhor doutor.

(continua...)

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