Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

Nem uma nem outra

Por Machado de Assis (1862)

Tenho hesitado em participar-te uma notícia de que aliás já estás inteirado; caso-me com tua prima. Eu nunca teria pensado em semelhante coisa, se não visse que tu, depois de um ligeiro namoro, ficaste indiferente ao destino da moça.

É claro que já te não importas com ela.

O fato de não a amares abriu a porta ao meu coração, que desde muito se sentia impressionado.

Amamo-nos ambos, e o casamento será daqui a cinqüenta dias.

Espero que o aproves.

Já era teu amigo; agora fico sendo teu parente.

Não precisava isto para apertar os laços de amizade que nos unem.

— Teu Correia. Vicente leu pasmado esta carta em que a audácia da hipocrisia não podia ir mais longe. Não respondeu.

— Deste modo, pensou Vicente, ele compreenderá que o desprezo e virá talvez pedir-me uma explicação.

Nisto enganou-se o rapaz.

Correia não pedira explicações, nem esperava resposta à carta. A carta era mais um ato de insolência que de hipocrisia. O rapaz queria machucar completamente o amigo. Vicente esperou debalde uma visita de Correia.

A indiferença exasperou-o ainda mais.

Acrescente-se a isto a situação dele em relação a Clara, que era cada vez pior. Dos arrufos tinham passado às grandes rixas, e a última fora revestida de graves circunstâncias.

Chegou finalmente o dia do casamento de Delfina.

Júlia escolheu também esse dia para casar-se.

Os dois casamentos se fizeram na mesma igreja.

Estas circunstâncias, além de outras, aproximaram Correia de Castrioto. Os dois noivos trataram juntos dos preparativos da festa dupla em que eles eram heróis. Na véspera do casamento, Castrioto foi dormir em casa de Correia.

— Conversemos das nossas noivas, disse Correia ao romancista.

— Apoiado, respondeu este.

Com efeito, lá se apresentou às dez horas, depois de sair da casa de Alvarenga, onde se despedira da namorada pela última vez, para cumprimentá-la no dia seguinte como noiva.

— Com que então amanhã, disse Correia, estamos casados.

— É verdade, respondeu Castrioto.

— Ainda me parece um sonho.

— E a mim! Pois há seis meses que namoro esta moça sem esperança de conseguir nada. O senhor é que andou depressa. Tão feliz não fui eu, apesar dos meus esforços.

— É verdade; amamo-nos depressa; e muito. Quer que lhe diga? E um pouco esquisito isto de dormir solteiro e acordar noivo. Que lhe parece?

— É verdade, respondeu Castrioto, em voz surda.

— Que tem, amigo? Parece que isso lhe traz idéias sombrias... Vejo-o pensativo... Que tem?

Depois de algum silêncio Castrioto respondeu:

— Eu lhe digo. Minha noiva casa-se comigo mediante uma condição. — Uma condição?

— Dolorosa.

— Meu Deus! que será?

— A de não escrever mais romances.

— Oh! mas parece que a noiva vale a condição, disse Correia sustando uma gargalhada.

— Vale, respondeu Castrioto, e por isso aceitei-a.

— E depois lá para diante...

— Não; aceitei a condição, hei de cumpri-la. E é por isso que eu, nesta hora solene em que me despeço da vida de solteiro, quero ler-lhe o meu último romance. Dizendo isto, Castrioto tirou do bolso um formidável rolo de papel, cujo aspecto fez empalidecer o hóspede.

Batiam onze horas.

A leitura do rolo não levava menos de duas horas.

Correia achou-se num destes momentos supremos em que toda a coragem é necessária ao homem.

Mas de que valia a maior coragem deste mundo contra um mau escritor que está disposto a ler uma obra?

Castrioto desenrolou o romance, dizendo:

— O título deste é: Os perigos do amor ou a casa misteriosa.

Correia não podia escapar ao perigo da leitura.

Entretanto, para servi-lo, pediu licença a Castrioto para pôr-se à fresca e deitar-se no sofá.

Feito isto, deu sinal a Castrioto para começar.

O romancista tossiu e entrou a ler o romance.

Quando acabou o primeiro capítulo, voltou-se para Correia e perguntou-lhe:

— Que lhe parece este capítulo?

— Excelente, respondeu Correia.

Começou o segundo capítulo com entusiasmo.

— Que lhe parece este capítulo?

Nenhuma resposta.

Castrioto aproximou-se do hóspede; dormia a sono solto.

— Miserável! disse o romancista, indo deitar-se na cama de Correia.

IX

O dia seguinte era o grande dia.

Para os noivos levantou-se o sol como nunca; para Vicente jamais a luz do sol lhe pareceu tão irônica e zombeteira.

A felicidade de Correia aumentava o despeito do rapaz e dava maiores proporções ao desdém com que o rival o tratava.

Por compensação, aliás fraca em tais circunstâncias — Clara mostrava-se nesse dia mais solícita e amável que nunca. Acordou cantando e rindo. Com o humor da rapariga diminuiu um pouco o aborrecimento de Vicente.

(continua...)

12345678
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →