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#Comédias#Literatura Brasileira

O Judas em sábado de aleluia

Por Martins Pena (1844)

Maricota (à parte, enquanto o Capitão procura) — Puxa a espada! Estou arrependida de ter dado a corda a este tolo. (O Capitão procura o gato atrás de Faustino, que está imóvel; passa por diante e continua a procurá-lo. Logo que volta as costas a Faustino, este mia. O Capitão volta para trás repentinamente. Maricota surpreende-se)

Capitão — Miou!

Maricota — Miou?!

Capitão — Está por aqui mesmo. (Procura)

Maricota (à parte) — É singular! Em casa não temos gato!

Capitão — Aqui não está. Onde, diabo, se meteu?

Maricota (à parte) — Sem dúvida é algum da vizinhança. (Para o Capitão:) Está bom, deixe; ele aparecerá.

Capitão — Que o leve o demo! (Para Maricota!) Mas procure-o bem até que o ache, para arrancar-lhe a carta. Podem-na achar, e isso não me convém. (Esquece-se de embainhar a espada) Sobre esta mesma carta desejava eu falar-te.

Maricota — Recebeu minha resposta?

Capitão — Recebi, e a tenho aqui comigo. Mandaste-me dizer que estavas pronta a fugir para minha casa; mas que esperavas primeiro poder arranjar parte do dinheiro que teu pai está ajuntando, para te safares com ele. Isto não me convém. Não está nos meus princípios. Um moço pode roubar uma moça — é uma rapaziada; mas dinheiro... é uma ação infame!

Maricota (à parte) — Tolo!

Capitão — Espero que não penses mais nisso, e que farás somente o que te eu peço. Sim?

Maricota (à parte) — Pateta, que não percebe que era um pretexto para lhe não dizer que não, e tê-lo sempre preso.

Capitão — Não respondes?

Maricota — Pois sim. (A parte) Era preciso que eu fosse tola. Se eu fugir, ele não se casa.

Capitão — Agora quero sempre dizer-te uma cousa. Eu supus que esta história de dinheiro era um pretexto para não fazeres o que te pedia.

Maricota — Ah, supôs? Tem penetração!

Capitão — E se te valias desses pretextos é porque amavas a...

Maricota — A quem? Diga!

Capitão — A Faustino.

Maricota — A Faustino? (Ri às gargalhadas) Eu? Amar aquele toleirão? Com olhos de enchova morta, e pernas de arco de pipa? Está mangando comigo. Tenho melhor gosto. (Olha com ternura para o Capitão)

Capitão (suspirando com prazer) — Ah, que olhos matadores! (Durante este diálogo Faustino está inquieto no seu lugar)

Maricota — O Faustino serve-me de divertimento, e se algumas vezes lhe dou atenção, é para melhor ocultar o amor que sinto por outro. (Olha com ternura para o Capitão. Aqui aparece na porta do fundo José Pimenta. Vendo o Capitão com a filha, pára a escuta)

Capitão — Eu te creio, porque teus olhos confirmam tuas palavras. (Gesticula com entusiasmo, brandindo a espada) Terás sempre em mim um arrimo, e um defensor! Enquanto eu for capitão da Guarda Nacional e o Governo tiver confiança em mim, hei-de sustentar-te como uma princesa. (Pimenta desata a rir às gargalhadas. Os dous voltam-se surpreendidos. Pimenta caminha para a frente, rindo-se sempre. O Capitão fica enfiado e com a espada levantada. Maricota, turbada, não sabe como tomar a hilaridade do pai)

CENA VII

Pimenta e os mesmos.

Pimenta (rindo-se) — O que é isto, Sr. Capitão? Ataca a rapariga... ou ensina-lhe a jogar à espada?

Capitão (turbado) — Não é nada, Sr. Pimenta, não é nada... (Embainha a espada) Foi um gato.

Pimenta — Um gato? Pois o Sr. Capitão tira a espada para um gato? Só se foi algum gato danado, que por aqui entrou.

Capitão, querendo mostrar tranqüilidade — Nada; foi o gato da casa que andou aqui pela sala fazendo estripulias.

Pimenta — O gato da casa? É bichinho que nunca tive, nem quero ter.

Capitão — Pois o senhor não tem um gato?

Pimenta — Não senhor.

Capitão (alterando-se) — E nunca os teve?

Pimenta — Nunca!... Mas...

Capitão — Nem suas filhas, nem seus escravos?

Pimenta — Já disse que não.... Mas...

Capitão (voltando-se para Maricota) — Com que nem seu pai, nem a sua irmã e nem seus escravos têm gato?

Pimenta — Mas que diabo é isso?

Capitão — E no entanto... Está bom, está bom! (Ã parte:) Aqui há maroteira!

Pimenta — Mas que história é essa?

Capitão — Não é nada, não faça caso; ao depois lhe direi. (Para Maricota:) Muito obrigado! (Voltando-se para Pimenta:) Temos que falar em objeto de serviço.

Pimenta (para Maricota) — Vai para dentro.

Maricota (à parte) — Que capitão tão pedaço de asno! (Sai)

CENA VIII

(continua...)

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