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#Comédias#Literatura Brasileira

O Juiz de Paz da Roça

Por Martins Pena (1838)

Ambientado no meio rural brasileiro do século XIX, o texto retrata com humor e ironia o cotidiano de uma comunidade do interior. A trama gira em torno de um juiz de paz despreparado, cujas decisões revelam abusos de poder, confusões e costumes da época. Por meio de situações cômicas, a obra critica práticas sociais e políticas, oferecendo um retrato satírico da vida na roça e da justiça local.

Comédia em 1 ato

PERSONAGENS

Juiz de Paz

Escrivão do Juiz (de Paz)

Manuel João, Lavrador [Guarda Nacional]

Maria Rosa, Sua Mulher

Aninha, Sua Filha

José [da Fonseca], Amante De Aninha

Inácio José

José da Silva

Francisco Antõnio

Manuel André

Sampaio (Lavradores)

Tomás

Josefa Joaquina

Gregório

[Negros]

[A cena é na roça.]

Ato único

CENA I

Sala com uma porta no fundo. No meio uma mesa, junto à qual estarão cosendo Maria Rosa e Aninha.

Maria Rosa − Teu pai tarda muito.

Aninha − Ele disse que tinha hoje muito que fazer.

Maria Rosa − Pobre homem! Mata-se com tanto trabalho! É quase meio-dia e ainda não voltou. Desde as quatro horas da manhã que saiu; está só com uma xícara de café.

Aninha − Meu pai quando principia um trabalho não gosta de o largar, e minha mãe sabe bem que ele tem só a Agostinho.

Maria Rosa − É verdade. Os meias-caras agora estão tão caros! Quando havia valongo eram mais baratos.

Aninha − Meu pai disse que quando desmanchar o mandiocal grande há de comprar uma negrinha para mim.

Maria Rosa − Também já me disse.

Aninha − Minha mãe, já preparou a jacuba para meu pai?

Maria Rosa − É verdade! De que me ia esquecendo! Vai aí fora e traz dous limões. (Aninha sai.) Se o Manuel João viesse e não achasse a jacuba pronta, tínhamos

campanha velha. Do que me tinha esquecido! (Entra ANINHA.)

Aninha − Aqui estão os limões.

Maria Rosa − Fica tomando conta aqui, enquanto eu vou lá dentro. (Sai.)

Aninha, só − Minha mãe já se ia demorando muito. Pensava que já não poderia falar com o senhor José, que está esperando-me debaixo dos cafezeiros. Mas como minha mãe está lá dentro, e meu pai não entra nesta meia hora, posso fazê-lo entrar aqui. (Chega à porta e acena com o lenço.) Ele aí vem.

CENA II

Entra José com calça e jaqueta branca.

José − Adeus, minha Aninha! (Quer abraçá-la.)

Aninha − Fique quieto. Não gosto destes brinquedos. Eu quero casar-me com o senhor, mas não quero que me abrace antes de nos casarmos. Esta gente quando vai à Corte, vem perdida. Ora diga-me, concluiu a venda do bananal que seu pai lhe deixou?

José − Concluí.

Aninha − Se o senhor agora tem dinheiro, por que não me pede a meu pai?

José − Dinheiro? Nem vintém!

Aninha − Nem vintém! Então o que fez do dinheiro? É assim que me ama? (Chora.)

José − Minha Aninha, não chores. Oh, se tu soubesses como é bonita a Corte!

Tenho um projeto que te quero dizer.

Aninha − Qual é?

José − Você sabe que eu agora estou pobre como Jó, e então tenho pensado em uma cousa. Nós nos casaremos na freguesia, sem que teu pai o saiba; depois partiremos para a Corte e lá viveremos.

Aninha − Mas como? Sem dinheiro?

José − Não te dê isso cuidado: assentarei praça nos Permanentes.

Aninha − E minha mãe?

José − Que fique raspando mandioca, que é ofício leve. Vamos para a Corte, que você verá o que é bom.

Aninha − Mas então o que é que há lá tão bonito?

José − Eu te digo. Há três teatros, e um deles maior que o engenho do capitão-mor.

Aninha − Oh, como é grande!

José − Representa-se todas as noites. Pois uma mágica... Oh, isto é cousa grande!

Aninha − O que é mágica?

José − Mágica é uma peça de muito maquinismo.

Aninha − Maquinismo?

José − Sim, maquinismo. Eu te explico. Uma árvore se vira em uma barraca; paus viram-se em cobras, em um homem vira-se em macaco.

Aninha − Em macaco! Coitado do homem!

José − Mas não é de verdade.

Aninha − Ah, como deve ser bonito! E tem rabo?

José − Tem rabo, tem.

Aninha − Oh, homem!

José − Pois o curro dos cavalinhos! Isto é que é cousa grande! Há uns cavalos tão bem ensinados, que dançam, fazem mesuras, saltam, falam, etc. Porém o que mais me espantou foi ver um homem andar em pé em cima do cavalo.

Aninha − Em pé? E não cai?

José − Não. Outros fingem-se bêbados, jogam os socos, fazem exercício − e tudo isto sem caírem. E há um macaco chamado o macaco. Major, que é coisa de espantar.

Aninha − Há muitos macacos lá?

José − Há, e macacas também.

Aninha − Que vontade tenho eu de ver todas estas cousas!

(continua...)

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