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#Comédias#Literatura Brasileira

Romance de uma Velha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

CLEMÊNCIA (A Irene) – Além da felicidade da sua companhia, só você, ficando conosco, poderia conseguir obstar uma grande imprudência...

IRENE (A Clemência) – Qual?

CASIMIRO (Indo a Irene) – Protesto contra o monopólio; Clemência não tem o direito de usurpar-nos dª. Irene. (Traz Irene a sentar-se e conversa com ela.)

MÁRIO (A Braz) – Não acha que meu pai está caindo no ridículo? (A Lauriano) Magnífico folhetim! venha amanhã à tarde visitar Hipogrifo.

CLEMÊNCIA (A Lauriano) – Dá-nos a sua companhia esta noite? esperamos algumas famílias amigas: o seu sacrifício será mais suave.

LAURIANO (A Clemência) – As famílias que espera serão por certo muito amáveis; mas só por quem tão cativadora me fala o sacrifício é não poder ficar.

CLEMÊNCIA (A Lauriano) – Sei que trabalha assíduo, e que hoje tem apressada tarefa, mas eu sou egoísta, e apraz-me experimentar o que mereço; demore-se aqui até a meia-noite, ainda que depois trabalhe até o romper da aurora.

LAURIANO (A Clemência) – Se eu chegasse a acreditar que o deseja!

CLEMÊNCIA (A Lauriano) – Gosto de ser déspota: ordeno.

LAURIANO (A Clemência) – E o escravo obedecerá feliz.

VIOLANTE (A Braz) – O que observo me põe a cabeça à roda. (A todos.) É quase noite... porque não entramos?... (Levantam-se todos.)

CLEMÊNCIA (A Irene) – Seu irmão fica; é necessário que Mário não nos deixe, esta noite haverá desordem no alcaçar, e ele quer ir...

IRENE (A Clemência) – Desordem... no alcaçar?... pois não há sempre?... (A Mário) Quando há novas corridas, sr. Mário?

MÁRIO – Daqui a dois meses... V. Ex. irá ao Prado?

IRENE – Desejo muito; Lauriano prometeu levar-me.

MÁRIO – Sublimizarei Hipogrifo...

IRENE (Mais baixo) – Sinto-me ditosa, porque vou passar a noite em sua casa...

MÁRIO (A Irene) – Logo esta noite... quando um ponto de honra me aparta...

IRENE (A Mário) – Ah!... perdão... não ouso pedir-lhe a preferência de algumas horas que me aditariam... sei bem que pouco valho...

CASIMIRO (A Braz) – Mário tem tomado uns modos tão inconvenientes que começa a desagradar-me... não reparas!

BRAZ (A Casimiro) – Estou vendo... é claro que ele gosta da vizinha; pendor da família!

IRENE (A Mário) – Se eu tivesse poder sobre o senhor, exigiria que ficasse...

MÁRIO (A Irene) – Exige de um soldado a deserção na hora da batalha! esperam-me, dª. Irene; palavra de honra que contam comigo...

CASIMIRO – Não vais hoje ao alcaçar, Mário?

MÁRIO (A Braz) – Já viu esta?... (Alto.) Não, senhor; hoje passo a noite em casa: meu pai quer o meu bilhete?...

CASIMIRO – Esqueces que hoje a noite é de recepção, adoidado?

MÁRIO – Ah! é verdade! mais uma razão para que eu não saia de casa.

VIOLANTE (A Braz) – Braz! Braz! por fim de contas no meu tempo não era

assim.

(Vão-se todos para a casa; Braz conduz Violante, Lauriano acompanha Clemência. Mário apodera-se de Irene, Casimiro de mau modo segue perto destes dois.)

FIM DO PRIMEIRO ATO

ATO II

Passeio Público do Rio de Janeiro: ao fundo, o Outeiro dos Jacarés, tendo aos lados as escadas que dão subida para a varanda; nos planos até a frente, quanto se puder aproveitar, copiando o sítio.

CENA I

VIOLANTE e BRAZ, CLEMÊNCIA e AUGUSTO, CASIMIRO e PORFÍRIO; até o fim do ato, concurso de passeadores de ambos os sexos

VIOLANTE – Quero descansar aqui por alguns minutos.

CASIMIRO – Liberdade plena; subo com Porfírio ao terraço... gosto muito da vista da barra. (Segue com Porfírio.)

CLEMÊNCIA – Eu vou com o sr. doutor até a ponte rústica. (Segue com Augusto.)

BRAZ – Cuidado não caia, dª. Clemência: o corrimão da ponte está meio estragado.

AUGUSTO (A Clemência) – Aquilo é comigo.

CENA II

VIOLANTE sentada, BRAZ em pé

BRAZ – Aquele sujeito que acompanha Clemência é um dos três namorados da aposta.

VIOLANTE – Teimas em querer envolver-me em semelhante embrulhada?

BRAZ – A madrinha teve sempre queda para pregar peças; ensaie esta comédia; basta que se finja disposta a casar-se, que se mostre um pouco sensível, que... et coetera... et coetera.

VIOLANTE – Por fim de contas tenho sessenta e dois anos: é inverossímil.

BRAZ – Inverossímil! com quinhentos contos e depois dos cinqüenta anos quanto mais velha mais noivos a escolher... pela regra das probabilidades...

VIOLANTE – Mas os três designados amam Clemência, apesar de pobre.

BRAZ – Não amam, namoram: a diferença é enorme.

VIOLANTE – Queres por força que eu me abaixe a parecer velha ridícula e néscia?

BRAZ – Por oito dias só: verá o ensino que daremos e a confusão que irá pela casa.

VIOLANTE – E no fim?

BRAZ – Haverá desengano de tolos e abatimento da vaidosa.

VIOLANTE – Braz, eu não gosto de brincar; quando, porém, me atiro à zombaria é como no tempo em que jogava o entrudo.

(continua...)

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