Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#ensaio_literari#Literatura Brasileira

Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Quase logo famílias da amizade do cirurgião principiaram a visitá-lo a miúdo, vindo cear com ele, e, enquanto os homens conversavam com Aleixo Manoel, as senhoras, em círculo separado, tinham sempre a contar casos escandalosos de seduções e de raptos de meninas pobres, vítimas de Gil Eanes, de Lopo de Melo e de seus companheiros de libertinagem.

Inês escutava essas histórias sinistras, fingindo-se indiferente a elas, se bem que às vezes dissimulada sorrisse, adivinhando a encomenda, não menos se sentia impressionada.

Gil Eanes e Lopo de Melo fizeram mais e melhor do que as comadres de Aleixo Manoel.

Gil Eanes mandou propor a Inês que em noite aprazada fugisse da casa do cirurgião para doce retiro, onde ele lhe assegurava, além do. seu amor, felicidade e riqueza. Lopo de Melo mandou oferecer-lhe a liberdade por dinheiro, prestando-se ela a ficar para sempre sob sua amorosa proteção.

Inês repeliu as proposições; mas desde que lhas trouxeram, deixou de cismar, voltou ao seu natural caráter alegre e travesso, e ainda mais faceira se mostrou.

E por isso ou por alguma outra razão Aleixo Manoel pôs-se de cabeleira nova.

Entretanto ele não perdia de vista os libertinos rondantes do Desvio do Mar.

Cirurgião caridoso e com numerosa clínica gratuita, Aleixo Manoel tinha corações agradecidos entre a gente pobre e desgraçada de quem era benfeitor.

Uma noite veio um embuçado falar-lhe: entrou meio atarantado e descobriu o rosto.

- Oh! és tu João de Pina?... temos história?...

João de Pina era um degradado, vadio e desordeiro valentão, que muitas vezes servia a Gil Eanes em suas empresas mais arriscadas.

- Temos... respondeu João de Pina: amanhã é domingo de entrudo, não é?...

- É.

- Pois amanhã, às onze horas da noite, venho eu e mais meia dúzia, aqui com o Sr. Gil Eanes, earrombada a sua porta com berraria de entrudo, havemos de roubar-lhe a menina sua escrava, a pesar seu e dela.

- Podes ter mais dez vezes ataques de fígado e de bofes, que eu te hei de curar, como já o fiz oano passado, e neste: vai-te embora, bom tratante, e toma lá para molhar a garganta...

João de Pina recebeu uma moeda de prata, embuçou-se bem, cobrindo o rosto, e disse, saindo: - Até amanhã às onze horas da noite...

Aleixo Manoel tomou o chapéu e a bengala, e pôs-se em marcha; mas ao dobrar pela Rua Direita, tomou-lhe o braço uma mulher de mantilha, que lhe disse:

- Sr. Aleixo, eu ia lá... a sua casa...

- Inútil; nem que fosse o Sr. Capitão-mor Governador; morra quem morrer, esta noite não vejodoentes...

- Más não é caso de doença... é do seu crédito... eu sou a velha Sebastiana...

- Oh! mãe Sebastiana! então que há?

- Amanhã não é domingo de entrudo?...

- É, que diabo!...

- Foi meu filho que me mandou em segredo...

E a velha agarrou-se ao cirurgião, que lhe curava as erisipelas e ao filho tinha curado de uma vômica, e disse-lhe baixinho ao ouvido:

- Amanhã às onze horas da noite o senhor não estará em casa...

- Eu?... pode ser... mas... por quê?...

- Porque meia hora antes hão de bater-lhe à porta, e chamá-lo para acudir a um ataque decabeça do Sr. Governador...

- E depois que eu sair a acudi-lo?

- Meu desgraçado filho e outros sequases do Sr. Lopo de Melo (que conta com o seu escravoTomé), entrando pela porta que abre para o jardim de sua casa tomarão e à força levarão, não sei para onde, a menina Inês, sua escrava.

- Obrigado, mãe Sebastiana; eu lhe darei notícias minhas... agora tenho pressa...

E Aleixo Manoel foi dizendo consigo:

- Dois à mesma noite e à mesma hora!... Que canalha de fidalgos!... mas... Tomé... duvido.

Era quase meia-noite quando Aleixo Manoel, de volta do monte do Castelo, recolheu-se à sua casa. Estava tranqüilo e contente; mas, ao entrar, disse a Tomé, que lhe abrira e depois trancara a porta:

- Vem cá.

E na sala perguntou-lhe:

- Inês?...

- Dorme.

- E que há de novo?...

- Lopo hoje me pagou traição: amanhã onze horas da noite ele vem roubar a menina. Deixaele!...

- Queres que deixe roubá-la?...

O velho índio riu-se horrivelmente, saiu da sala, e quase logo voltou, trazendo na mão uma clava de gentio, a tacape pesada e terrível:

- Deixa! repetiu Tomé; eu mato!

- Vai dormir, disse Aleixo Manoel: amanhã te direi o que hás de fazer.

No dia seguinte, domingo de entrudo, e do entrudo selvagem e delirante daqueles tempos, era pouco antes das onze horas da noite, quando bateram fortemente à porta da casa do cirurgião, e o chamaram a alto bradar em socorro do governador, o venerado Salvador Correia de Sã, que se achava em perigo de morte.

O índio Tomé abrindo uma janela despediu os emissários, dizendo-lhes que seu senhor ia partir imediatamente, e com efeito, minutos depois, saiu apressado da casa um homem embuçado, que era sem dúvida o famoso cirurgião da cidade.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...45678...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →