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#Romances#Literatura Brasileira

As Vítimas-Algozes

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Domingos Caetano e Angélica fatigaram-se de duvidar, e cederam à evidência, reconhecendo que Simeão lhes furtava dinheiro e objetos de valor; mas em vez de castigá-lo com severidade, fracos ainda, quiseram ver no crime apenas uma extravagância da mocidade, e limitaram-se a repreender com aspereza, e a impedir durante algumas semanas as saídas de Simeão. 

A insuficiência do castigo serviu somente para irritar o crioulo que, ressentido da privação de seus prazeres, maldisse dos senhores na cozinha, recrudescendo-lhe a raiva com as zombarias e as provocações dos parceiros. 

A escravidão já tinha com o seu cortejo lógico e quase sempre infalível de todos os sentimentos ruins, de todas as paixões ignóbeis, estragado o crioulo que talvez houvesse nascido com felizes disposições naturais: o ódio aos senhores já estava incubado na alma do escravo; só faltava para desenvolvê-lo o calor mais forte da ação do domínio absoluto que desumaniza o homem a ele sujeito. 

Simeão acabava de contar dezenove anos e nunca houvera sofrido castigo algum corporal. Vira por vezes o quadro repulsivo dessas punições que são indeclináveis nas fazendas, mas nem por isso menos contristadoras, e de cada vez que os vira, experimentara abalo profundo e seguido de melancolia que durava horas: não falava, não manifestava por palavras ou queixas o que sentia; mas dentro de si estava dizendo: 

“e também eu posso ser castigado assim!  

Entretanto Domingos e Angélica eram senhores bons e humanos. 

Um dia quase ao pôr-do-sol Florinda, que aliás protegia muito Simeão, surpreendeu-o, saindo do quarto de seus pais, e no ato de esconder um objeto no bolso. 

O crioulo aproveitara a ocasião, em que Angélica e Florinda tinham ido passear à horta, para invadir o quarto do senhor, donde furtara uma corrente de ouro que dois dias antes Domingos comprara a um vendedor de jóias. 

Ainda um furto, Simeão!... – exclamou Florinda que de súbito acabava de chegar. 

E quem lhe disse que eu furtei?... – perguntou audaciosamente o crioulo. 

A moça avançou um passo para o escravo e disse-lhe: 

Entrega-me o que furtaste: eu não direi nada e te perdoarei... tu és doido e queres ser desgraçado... 

Em vez de obedecer sem insolência e de curvar-se agradecido diante do anjo do perdão, o crioulo recuou, dizendo em alta voz: 

É mentira! Eu não furtei. 

À palavra mentira, Florinda estremeceu ferida pelo insulto. 

Atrevido! – bradou. 

Uma escrava correu ao grito da senhora-moça. 

Tira do bolso desse miserável o que ele acaba de furtar! 

A escrava ia cumprir a ordem; mas Simeão repeliu-a, e tirando a corrente do bolso, lançou-a de longe à parceira com movimento tão desastrado ou com tal propósito de ofensa, que a corrente foi cair aos pés de Florinda. 

Nesse momento entravam Angélica e Domingos que chegara da roça, e tinha ainda na mão o açoite do cavalo. 

– Que foi isto? – perguntou ele. 

Florinda era uma santa: compadeceu-se do crioulo e calou-se; a escrava, porém, obedeceu e falou. 

Ouvindo a relação do caso e do insulto feito à filha, Domingos Caetano, tomado de justa cólera, levantou o açoite e descarregou-o com vivacidade sobre as costas de Simeão. 

Seis vezes e repetidamente os golpes se tinham repetido, quando Florinda em pranto arrancou o açoite da mão de seu pai. 

Simeão recebera as chicotadas imóvel, sem soltar um gemido, sem derramar uma lágrima, e sem pronunciar uma só palavra de arrependimento ou desculpa, e quando privado do açoite Domingos Caetano o ameaçava ainda, ele com os olhos turvos e como em olhar febril mediu de alto a baixo o senhor que tão justamente o castigara, e a senhora-moça que tão piedosa correra a poupá-lo a maior e bem merecida punição. 

Foi nesse dia que se desenvolveu o ódio do escravo. O ingrato se tornou odiento e inimigo figadal de seus benfeitores. 

Até os dezenove anos corpo virgem de castigos, Simeão vira enfim realizada a sua terrível e sombria apreensão: também ele tinha provado o açoite da escravidão. 

O pervertido crioulo não pesou nem por instantes as proporções do desrespeito audacioso, da injúria com que ofendera a senhora-moça, não se lembrou da reincidência do seu crime de furto, esqueceu, desprezou o generoso movimento com que Florinda o acudira, nem mesmo pareceu ter idéia da dor das chicotadas; mas a seus olhos só e incessante se mostrava a imagem do açoite, quando atirado no ar, a cair-lhe sobre as espáduas, e a imprimir-lhe nas espáduas a marca da última abjeção. 

Em falta de pundonor e de vergonha, que a escravidão não comporta, o escravo tem o rancor e o desejo da vingança.  

Nas pontas do açoite está o emblema do rancor do escravo: às vezes há nas pontas do açoite marcas de sangue. 

(continua...)

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