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#Contos#Literatura Brasileira

Decadência de dois grandes homens

Por Machado de Assis (1873)

Força desconhecida me levantou também do sofá, e eu acompanhei as luzes até meio caminho. Depois seguiram elas, e eu fiquei no espaço, contemplando a cidade iluminada, tranqüila e silenciosa. Fui transportado ao oceano, onde vi uma concha à minha espera, uma verdadeira concha mitológica. Entrei nela e comecei a andar na direção do oeste. Prossegui esta amável peregrinação de um modo verdadeiramente mágico. De repente senti que o meu nariz crescia desmesuradamente; admirei o sucesso, mas uma voz secreta me dizia que os narizes são sujeitos a transformações inopinadas — razão pela qual não me admirei quando o meu apêndice nasal assumiu sucessivamente a figura de um chapéu, de um revólver e de uma jaboticaba. Voltei à cidade; e entrei nas ruas espantado, porque as casas me pareciam todas voltadas com os alicerces para cima, coisa sumamente contrária à lei das casas, que devem ter os alicerces embaixo. Todos me apertavam a mão e perguntavam se eu conhecia a ilha das chuvas, e como eu respondesse que não, fui levado à dita ilha que era a Praça da Constituição e mais o seu jardim pomposamente iluminado. 

Nesta preocupação andei até que fui levado outra vez à casa onde se passara a tragédia referida acima. A sala estava só; nem vestígio dos dois homens ilustres. O lampião estava a expiar. Sai aterrado e desci as escadas até chegar à porta onde achei a chave. Não dormi nessa noite; a madrugada veio surpreender-me com os olhos abertos, contemplando de memória o miserando caso da véspera. 

Fui almoçar ao Carceller. 

Qual não foi o meu espanto quando lá encontrei vivo e são aquele que eu supunha na eternidade? 

— Venha cá, venha cá! disse ele. Por que saiu ontem de casa sem falar? — Mas... o senhor... pois César não o engoliu? 

— Não. Esperei a hora fatal, e apenas ela passou, dei gritos de alegria e quis acordá-lo; mas o senhor dormia tão profundamente que achei melhor ir fazer o mesmo. — Céus! pois eu... 

— Efeitos do charuto que lhe dei. Teve belos sonhos, não? 

— Todos, não; sonhei que o gato o engolia... 

— Ainda não... Agradeço-lhe a companhia; agora esperarei o ano que vem. Quer almoçar? 

Almocei com o homem; no fim do almoço ofereceu-me ele um charuto, que eu recusei dizendo: 

— Nada, meu caro; vi coisas terríveis esta noite... 

— Falta de costume... 

— Talvez. 

Saí triste. Procurava um homem original e achei um maluco. Os de juízo são todos copiados uns dos outros. Consta-me até que aquele mesmo homem de Plutarco, freguês do Carceller, curado por um hábil médico, está agora tão comum como os outros. Acabou a originalidade com a maluquice. Tu quoque, Brute? 


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