Por Bento Teixeira (1601)
De cem mãos, e da Mãe Terra gerados,
E Quimeras ardentes e flamantes,
Com outros feros monstros encantados;
Primeiro que de peitos tão constantes
Veja sair efeitos reprovados,
Que não podem (falando simplesmente)
Nascer trevas da luz resplandecente.
LXVI
E se determinais a cega fúria
Executar de tão feroz intento,
A mim fazei o mal, a mim a injúria,
Fiquem livres os mais de tal tormento.
Mas o Senhor que assiste na alta Cúria
Um mal atalhará tão violento,
Dando-nos brando Mar, vento galerno,
Com que vamos no Minho entrar paterno.
LXVII
"Tais palavras do peito seu magnânimo
Lançará o Albuquerque famosíssimo,
Do soldado remisso e pusilânime,
Fazendo com tal prática fortíssimo.
E assim todos concordes, e num ânimo,
Vencerão o furor do Mar bravíssimo,
Até que já a Fortuna, d’enfadada,
Chegar os deixe a Pátria desejada.
LXVIII
À Cidade de Ulisses destroçados
Chegarão da Fortuna e Reino salso,
Os Templos visitando Consagrados,
Em procissão, e cada qual descalço.
Desta maneira ficarão frustrados
Os pensamentos vãos de Lémnio falso,
Que o mau tirar não pode o benefício
Que ao bom tem prometido o Céu propício.
LXIX
Neste tempo Sebasto Lusitano,
Rei que domina as águas do grão Douro,
Ao Reino passará do Mauritano,
E a lança tingirá em sangue Mouro;
O famoso Albuquerque, mais ufano
Que Iason na conquista do véu d’ouro,
E seu Irmão, Duarte valoroso
, Irão co Rei altivo, Imperioso.
LXX
Nô a Nau, mais que Pístris, e Centauro,
E que Argos venturosa celebrada,
Partirão a ganhar o verde Lauro
À região da seta reprovada.
E depois de chegar ao Reino Mauro,
Os dous irmãos, com lança e com espada,
Farão nos Agarenos mais estrago
Do que em Romanos fez o de Cartago.
LXXI
Mas, ah! ínvida sorte, quão incertos
São teus bens e quão certas as mudanças;
Quão brevemente cortas os enxertos
A ô as mal nascidas esperanças.
Nos mais riscosos trances, nos apertos,
Ante mortais pelouros, ante lanças,
Prometes triunfal palma e vitória,
Pera tirar no fim a fama, a glória.
LXXII
Assim sucederá nesta batalha
Ao mal afortunado Rei ufano,
A quem não valerá provada malha,
Nem escudo d’obreiros de Vulcano.
Porque no tempo que ele mais trabalha
Vitória conseguir do Mauritano
Num momento se vê cego e confuso,
E com seu esquadrão roto e difuso".
LXXIII
Anteparou aqui Proteu, mudando
As cores e figura monstruosa,
No gesto e movimento seu mostrando
Ser o que há de dizer cousa espantosa.
E com nova eficácia começando
A soltar a voz alta e vigorosa,
Estas palavras tais tira do peito,
Que é cofre de profético conceito:
LXXIV
"Ante armas desiguais, ante tambores
De som confuso, rouco e redobrado,
Ante cavalos bravos corredores,
Ante a fúria do pó, que é salitrado;
Ante sanha, furor, ante clamores,
Ante tumulto cego e desmandado,
Ante nuvens de setas Mauritanas,
Andará o Rei das gentes Lusitanas.
LXXV
No animal de Netuno, já cansado
Do prolixo combate, e mal ferido,
Será visto por Jorge sublimado
, Andando quase fora de sentido.
O que vendo o grande Albuquerque ousado,
De tão trágico passo condoído,
Ao peito fogo dando, aos olhos água,
Tais palavras dirá, tintas em magoa":
LXXVI
— Tão infeliz Rei, como esforçado,
Com lágrimas de tantos tão pedido,
Com lágrimas de tantos alcançado,
Com lágrimas do Reino, em fim perdido.
Vejo-vos co cavalo já cansado,
A vós, nunca cansado, mas ferido,
Salvai em este meu a vossa vida,
Que a minha pouco vai em ser perdida.
LXXVII
Em vós do Luso Reino a confiança
Estriba, como em base só, fortíssimo;
Com vós ficardes vivo, segurança
Lhe resta de ser sempre florentíssimo.
Ante duros farpões e Maura lança,
Deixai este vassalo fidelíssimo,
Que ele fará por vós mais que Zopiro
Por Dario, até dar final suspiro.
LXXVIII
"Assim dirá o Herói, e com destreza
Deixará o genete velocíssimo,
E a seu Rei o dará: Ó Portuguesa
Lealdade do tempo florentíssimo!
O Rei Promete, se de tal empresa
Sai vivo, o fará senhor grandíssimo,
(continua...)
TEIXEIRA, Bento. Prosopopeia. 1601. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16579. Acesso em: 28 nov. 2025.