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#Sermões#Retórica

Sermão da Terceira Quarta-Feira da Quaresma

Por Padre Antônio Vieira (1670)

104.O mais justo, reto, inteiro e constante homem que houve entre os romanos foi Marco Pórcio Catão. E que conseguiu com esta inteireza e constância de sua justiça inflexível? Conseguiu, como refere Plínio, que ninguém no seu consulado se atreveu a lhe pedir coisa que não fosse justa. Assim lho disse com admiração a eloqüência de Túlio: O te felicem, Marce Porce, a quo rem improbam petere nemo audet! Tal será a reverência do governo e tal a felicidade do rei que em todas suas resoluções e despachos observar constantemente a justiça. A justiça, como a definem os teólogos e juristas, não é outra coisa que uma perpétua e constante vontade de dar a cada um o que merece. Se esta vontade – que ordinariarnente é tão mudável nos afetos humanos – for constante e perpétua no príncipe, todos se desenganarão que não hão de alcançar dele senão o que for devido a seus serviços e proporcionado a seus merecimentos. E, por meio deste desengano, conseguirá a felicidade de que ninguém se atreva a lhe pedir senão o que for justo. O te felicem, a quo rem improbam petere nemo audet! Feliz, porque, não se atrevendo ninguém a pedir senão o justo, serão muito menos as petições e requerimentos; feliz, porque, não pedindo ninguém senão o que lhe é devido, haverá com que satisfazer a todos; feliz, porque, sendo as petições e requerimentos justificados, sempre o príncipe concederá o que se lhe pedir, e nunca dirá não. Não é melhor e mais decente, e mais breve, e mais útil, que o não o digam a si mesmos aqueles que haviam de pedir, do que dizer-lho a eles o príncipe depois de pedirem? Pois isso é o que sucederá, se ninguém se atrever a pedir senão o que merecer.

105. Disse Isaías a el-rei Acab, que, em prova do que lhe tinha anunciado, desde o céu até o inferno pedisse livremente o sinal que quisesse: Pete tibi signum a Domino in profundum inferni, sive in excelsum supra (Is. 7,11). E que responderia Acab? Non petam: Não pedirei tal coisa. – Assim o disse resolutamente, e assim o cumpriu. Mas porquê? Se o profeta o assegurava e exortava a que pedisse aquele sinal, e com tanta largueza de eleição quanto vai do céu ao centro da terra, porque não quer pedir Acab? Ele mesmo deu a razão: Non petam, e non tentabo Dominum: Não pedirei tal coisa, porque não quero tentar a Deus. – Tentar a Deus é querer que Deus faça o que não deve, assim como o demônio nos tenta para que façamos o que não devemos. E fez este discurso Acab: Deus é justo e justíssimo, antes a mesma justiça; eu não lhe tenho feito nenhuns serviços – porque sirvo a outros deuses – para que me faça tamanhas mercês: pois como terei eu atrevimento para lhe pedir o que me promete Isaías? Isto será tentar a Deus, e querer que o justo e justíssimo faça o que não deve. E assim me resolvo a não pedir: Nan peram. – Seja o príncipe justo, e tão constantemente justo, que por nenhum outro motivo nem respeito, dê a ninguém senão o que merecer e lhe for devido, e logo os vassalos se não atreverão a pretender as sem-razões e exorbitâncias que vemos, e se benzerão de pedir, como de tentação: Non petam, et non tentabo Daminum (Is. 7,12).

106. Oh! se os reis, tantas vezes e tão injuriosamente tentados, ao menos não consentissem na tentação! Não digo que castiguem severamente algumas petições, posto que imitariam nisto a Salomão, o qual por uma petiçãozinha – que assim lhe chamou a intercessora: Petitionem parvo Iam (3 Rs. 2, 20) – mandou cortar a cabeça a Adanias. E verdadeiramente há petições que, bem interpretadas, são libelos infamatórios dos mesmos príncipes em cujas mãos se metem. Porque, se são dolosas, como era esta de Adanias, supõem que são néscios; se são exorbitantes, supõem que são pródigos; se são contra os cânones apostólicos – como são muitas – supõem que não são católicos. E de qualquer modo que peçam o que não é justo, supõem que são injustos. Mas se, antes de fazerem as petições, supuserem e se desenganarem que nenhuma coisa hão de conseguir, senão o que ditar a inteira e reta justiça, eles se comporão com a sua ambição, e tomarão por partido o não pedir: Non petam. Notai onde está o non, e vede quanto mais conveniente é para o vassalo, e mais expediente para o governo, e mais decente para o rei, o não antes do petam, que depois da petição. É mais conveniente para o vassalo, porque melhor lhe está que, desenganado, torne por si mesmo o não, e a ponha antes das suas petições, que ouvi-lo depois delas. É mais expediente para o governo, porque, cessando o tumulto e inundação dos requerimentos, que verdadeiramente afogam, terão mais fácil expedição os negócios. E finalmente é mais decente e decoroso para o rei, porque nenhum que vier buscar o prêmio ou o remédio aos pés da majestade, se apartará deles descontente. Virão a ser por essa via todas as petições da nossa corte, como as que se despacham na do céu. Davi dizia a Deus: Intret postulatio mea in conspectu tuo (SI. 118,170): Entre, Senhor, a minha petição ao vosso conspecto. – Nas cortes da terra deseja o pretendente que saia a sua petição; na do céu deseja que entre, porque uma vez que a petição foi tal que pudesse entrar, infalivelmente sai despachada. Assim será cá também, se ninguém pedir senão o que for justo, porque o rei justo à petição justa nunca pode dizer não.

(continua...)

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