Por Padre Antônio Vieira (1655)
69. Juntamente com os reinos do mundo mostrou também o demônio a Cristo todas as suas glórias: Et gloriam eorum. Mas, ainda que autorizadas com tão especioso nome, nenhum pendor fazem à balança, porque são tão vãs como o mesmo mundo, e ainda mais, se pode ser. E se não, discorrei por elas com qualquer átomo de consideração. O que mais pesa e o que mais luz no mundo, são as riquezas. E que coisas são as riquezas, senão um trabalho para antes, um cuidado para logo e um sentimento para depois? As riquezas, diz S. Bernardo, adquirem-se com trabalho, conservam-se com cuidado, e perdem-se com dor. Que coisa é o ouro e a prata, senão uma terra de melhor cor? E que coisa são as pérolas e os diamantes, senão uns vidros mais duros? Que coisas são as galas, senão um engano de muitas cores? Cabelos de Absalão, que pareciam madeixas, e eram laços. Que coisa é a formosura, senão uma caveira com um volante por cima? Tirou a morte aquele véu, e fugis hoje do que ontem adoráveis. Que coisa são os gostos, senão as vésperas dos pesares? Quem mais as canta, esse as vem a chorar mais. Que coisa são as delícias, senão o mel da lança de Jônatas? Juntamente vai à boca o favo e o ferro. Que coisa são todos os passatempos da mocidade, senão arrependimentos depositados para a velhice? E o melhor bem que podem ter é chegarem a ser arrependimentos. Que coisa são as honras e as dignidades, senão fumo? Fumo que sempre cega, e muitas vezes faz chorar. Que coisa é a privança, senão um vapor de pouca dura? Um raio do sol a levanta, e outro raio o desfaz. Que coisas são as provisões e os despachos grandes, senão umas cartas de Urias? Todas parecem cartas de favor, e quantas foram sentença de morte? Que coisa é a fama, senão uma inveja comprada? Uma funda de Davi que derruba o gigante com a pedra, e ao mesmo Davi como estralo. Que coisa é toda a prosperidade humana, senão um vento que corre todos os rumos? Se diminui, não é bonança, se cresce, é tempestade. Finalmente, que coisa é a mesma vida, senão uma a lâmpada acesa, vidro e fogo? Vidro, que com um assopro se faz; fogo, que com um assopro se apaga. Estas são as glórias do vosso mundo e dos vossos reinos: Omnia regina mundi, et gloriam eorum. E por estas glórias falsas, vãs e momentâneas, damos aquela alma imortal que Deus criou para a glória verdadeira e eterna.
70. Certo que andou o demônio muito néscio em mostrar o mundo e suas glórias a quem queria tentar com elas. Havia de encobrir a mercadoria, se queria que lha comprassem. O mundo, prometido, forte tentação parece; mas visto, não é tentação. Quereis que vos não tente o mundo ou que vos não vença, se vos tentar? Olhai bem para ele. Mordiam as serpentes no deserto venenosamente aos filhos de Israel E que fez Moisés? Mandou levantar em lugar alto uma daquelas serpentes feita de bronze: olhavam para ela os mordidos, e saravam. Todos nesta vida andais mordidos: uns mordidos do valimento, outros mordidos da ambição, outros mordidos da honra, outros mordidos da inveja, outros mordidos do interesse, outros mordidos da afeição, enfim todos mordidos. Pois, que remédio para sarar destas mordeduras do mundo? Pôr o mesmo mundo diante dos olhos, e olhar bem para ele. Quem haverá que olhe para o mundo com os olhos bem abertos, que veja como todo é nada, como todo é mentira, como todo é inconstância, como hoje não são os que ontem foram, como amanhã não hão de ser os que hoje são, como tudo acabou e tudo acaba, como havemos de acabar e todos mas acabando, enfim que veja ao mundo bem como é em si, que se não desengane com ele, e se não desengane dele? A serpente de Moisés era de bronze; o mundo também é serpente, mas de barro, mas de vidro, mas de fumo, que ainda são melhores metais para o desengano.
§IV
Vimos quanto pesa o mundo: vejamos agora quanto pesa uma alma. A cruz, balança justa em que Deus pesou o preço da alina. Só Deus se pode contrapesar com a alma. Toda a desgraça está em que o mundo com que o demônio nos tenta é visível, e a alma invisível Pela diferença do corpo morto, podemos avaliar o que é a alma.
71. Mas demos já uma volta à balança. Vimos quanto pesa o mundo; vejamos agora quanto pesa uma alma. Neste peso entramos todos. O peso do mundo não pertence a todos, porque muitos têm pouco mundo; o peso da alma, ninguém há a quem não pertença: o rei, o vassalo, o grande, o pequeno, o rico, o pobre, todos têm alma. Ora vejamos quanto pesa e quanto vale isto que todos trazemos e temos dentro em nós.
Onde porém achareinos nós uma balança tal, que se possa pesar nela uma alma? Quatro mil anos durou o mundo, sem haver em todo ele esta balança. E, porventura, essa foi a ocasião de se perderem naquele tempo tantas almas. Chegou finalmente o dia da Redenção, pôs-se o Filho de Deus em uma cruz, e ela foi a verdadeira e fiel balança que a divina justiça levantou no Monte Calvário, para que o homem conhecesse quão imenso era o peso e preço da alma que tinha perdido. Assim o canta e no-lo ensina a Igreja:
Beata cujus brachiis
Pretium pependit saeculi, Statera facta corporis.
Tulit que praedam tartari.13
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 31 ago. 2026.