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#Sermões#Retórica

Sermão da Quarta-Feira de Cinza

Por Padre Antônio Vieira (1673)

Tal é, senhores, a incerteza da morte; mas na nossa mão está fazê-la certa, se nos resolvemos a acabar a vida antes de morrer. Que bem vem caindo neste lugar aquele dito verdadeiramente romano do vosso Catão. Estava ele na África, sustentando só, como bom cidadão, as partes da república contra César; estava também ali o famosíssimo oráculo de Júpiter, Amon. Disseram-lhe que o consultasse. E que responderia Catão? Respondeu mais sabiamente do que pudera responder o mesmo Júpiter: Me non oracula certum, sed mors cert facit: Do meu fim não me certificamos oráculos: o meu oráculo certo é a morte certa. Falou barbaramente como gentio, mas generosamente como estóico. Era dogma da seita estóica, nos perigos de morrer indignamente, tirar-se a si mesmos a vida antes da morte. Assim o fez Catão tomando a morte certa por suas próprias mãos, por antecipar a morte duvidosa, vindo às mãos de César. Melhor o cristão que o estóico. O estóico mata-se para que o não matem: o cristão morre para morrer. Morrer mal, para não morrer pior, como faz o estóico, parece valor e prudência, mas é temeridade e fraqueza. Morrer bem, para morrer melhor, como faz o cristão, é valor, e verdadeira prudência. E se o estóico morre uma morte certa, o cristão morre duas, também certas, porque na certeza da primeira, segura a incerteza da segunda. Que se lhe dá logo ao cristão que a morte seja incerta, se ele, morrendo antes, a pode fazer certa.

Ouvi S. Paulo: Ego curro non quasi incertum (1 Cor. 9,26): Eu passo a carreira da vida como os outros homens, mas não corro como eles, ao incerto, senão ao certo. – Alude o apóstolo aos jogos daquele tempo, em que os contendores corriam até certa baliza ou meta, incertos de quem havia chegar primeiro ou depois. A meta é a morte, a carreira é a vida. E por que diz Paulo que ele corria ao certo, e não ao incerto, como os demais? Porque os demais acabam a carreira quando chegam à meta; Paulo antes de chegar à meta, tinha já acabado a carreira. Os demais acabam a vida quando chegam à morte; Paulo tinha acabado a vida antes de morrer. O mesmo Apóstolo o disse, persistindo na mesma metáfora: Bonum certamen certavi, cursum consumimavi (2 Tim. 4,7): Já tenho vencido o certame, já tenho acabado a carreira. Já? Para bem vos seja, apóstolo sagrado: mas quando? Aqui está a dúvida. Disse isto S. Paulo na segunda epístola que escreveu a Timóteo, a qual, como nota o Cardeal Barônio, foi escrita no ano quinto de Nero, oito anos antes que o mesmo Nero lhe tirasse a cabeça. Pois se a S. Paulo lhe restavam ainda tantos anos de vida, e podia viver muitos mais, como diz que já tinha acabado a sua carreira: Cursum consumimavi? Porque não esperou pela morte para acabar a vida: já tinha acabado a vida antes de morrer. E como tanto tempo antes podia dizer com verdade: Cursum consumniavi, por isso disse também com a mesma verdade: Ego curro non quasi in incertum, porque já tinha feito certo o incerto da morte. Para quem acaba a carreira da vida quando morre, é a morte incerta; mas para quem a soube acabar antes de morrer, não é incerta, é certa.

E para que vejais quão certa é, notai que entre todas as mortes certas, só esta, com que acabamos a vida antes de morrer, tem infalível e total certeza. Todas as outras mortes, ou no ser, ou no modo, ou no tempo, têm suas incertezas; só esta em si, e em todas suas circunstâncias é certamente certa. Quando por traça de Amã se publicou edito de morte contra todos os hebreus que viviam nas cento e dezessete províncias sujeitas a el-rei Assuero, diz o texto sagrado que todo Israel clamou a Deus, vendo-se condenados sem remédio à morte certa: Omnis Israel clamavit ad Dominum, e o quod eis certa mors impenderet (Est. 13, 18). Era certa esta morte, porque estava sentenciada; era certa, porque estava determinado o dia; e sobretudo era certa, porque os decretos dos reis, por lei inviolável dos persas e medos, eram irrevogáveis. Mas esta mesma morte tão certa, e que por tantas razões carecia de toda a defesa e remédio humano, alfim mostrou o efeito, que não tinha infalível certeza, porque, descoberto o engano e maldade de Amã pela rainha Ester, Assuero revogou o edito, e todos os que estavam condenados e sujeitos à morte ficaram livres e vivos (Est. 16). Tão incerta é a morte, ainda quando mais certa.

(continua...)

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