Por Gregório de Matos (1696)
Seu corpo é saco de grossos .................................................... ossos.
Correm-lhe das luzes belas ........................................................ ramelas,
e que mais há, que lhe corra? .................................................... borra.
Mil vezes borrada morra
dama de tão pouca estima,
que quis para pôr em cima
ossos, Ramelas, e Borra.
O MULEIRO, E O CRIADO.
MOTE
Caralho do Muleiro é feito de papelão,
arreita pelo inverno,
para foder no verão.
GLOSA
1 O Muleiro, e o Criado
tiveram grande porfia
sobre qual deles teria
mor membro, e mais estirado:
pôs-se o negócio em julgado,
e botando ao soalheiro
um, e outro membro inteiro,
às polegadas medido,
se viu, que era mais comprido
O caralho do Muleiro.
2 Disto Criado apelou,
e foi a razão, que deu,
que o membro então mais cresceu,
porque então mais arreitou:
logo alegou, e provou
não ser bastante razão
a polegada da mão
para vencer-lhe o partido.
que suposto que é comprido,
É feito de papelão.
3 Item sendo necessário,
disse mais, que provaria,
que se era papel, se havia
abaixar como ordinário:
que o membro era mui falsário
feito de um pobre quaderno,
tão fora do uso moderno,
que se uma Moça arreitada
lhe dá no verão entrada,
É para foder no inverno.
4 E que depois de se erguer,
é tão tardo, e tão ronceiro,
que há de mister o Muleiro
seis meses para o meter:
porque depois de já ter
aceso como um tição,
engana a putinha então,
pois pedindo a fornicasse,
lhe dizia, que esperasse
Para foder no verão.
DESCREVE O POETA HUMA BOCCA LARGA.
1 É justa razão, que eu gabe,
boca, a vossa perfeição,
porque vos caiba a razão,
onde a razão vos não cabe:
quem conhecer-vos não sabe,
não teme tamanha empresa,
que vos faz a natureza,
para ser do mundo espanto,
pois nele não cabe tanto,
como na vossa grandeza.
2 Os extremos, que mostrais,
quando esses beiços abris
lisos, delgados, sutis,
brancos, como dois cristais,
em nada são naturais,
que até esses dentes belos
usurparam aos cabelos,
e tem com eles trocada
a cor castanha, e dourada,
e são pardos, e amarelos.
3 E se os outros escondidos
somente o riso os declara,
vós, boca, de pouco avara
os tendes desimpedidos:
porque todos os sentidos
os tenham sempre presentes,
os olhos sempre luzentes
podem sem pestanejar
em tão remoto lugar
ver a beleza dos dentes.
4 Amor, que as almas condena,
por melhor as conquistar,
para ensinar a atirar,
que sejais meu branco ordena:
não creais, que por pequena
vos há de errar a medida,
antes minha alma duvida
de escapar-lhe em toda a toca,
se a medida dessa boca
houver de dar a ferida.
5 Aviso, graça, e saber,
amor, cuidado, e desejos,
quando for grande o bocejo,
em vós não se hão de esconder:
tesouro não podeis ser,
mas sois mina descoberta,
sendo cousa muito certa,
que a serem os dentes de ouro
éreis má para tesouro,
por andares sempre aberta.
AO CASAMENTO DE HUM SUGEYTO VALENTE COM HUMA ELENA DE TAL.
MOTE
Uma Helena por garbosa
Páris troiano a roubou
porém Miguel conquistou
outra Helena mais formosa.
1 Dous monstros a Roma bela
deram princípio e mofina,
uma casada à ruína,
o princípio uma donzela:
uma troiana, uma estrela,
um sol, um raio, uma rosa
abrasou Tróia formosa;
porém há de se entender
não por sol qualquer mulher
Uma Helena por garbosa.
2 Páris troiano Juiz,
que no monte Ida se achou,
o pomo à Vênus julgou
por mais bela, e mais feliz:
à Juno Deusa infeliz
tanto ofendeu, e irritou,
e tanto a Deusa forjou,
que tentando-o, a que roubasse
a Helena, e Tróia abrasasse,
Páris Troiano a roubou.
3 Hoje melhor imitada
Vemos de Páris a pena,
Páris perdeu pela pena,
Miguel ganhou pela espada:
pela fidalguia herdada,
pela riqueza, que herdou,
Miguel a Helena ganhou;
Páris amante descalço,
perdeu por roubar de falso,
Porém Miguel conquistou.
4 Miguel ditoso se alista
por conquistador do amor,
serviu, ganhou uma Flor,
e está Senhor da conquista:
Páris julgando a revista
civil, e contenciosa
de uma, e Outra Deusa irosa
teve uma Helena roubada,
mas a Miguel foi julgada
Outra Helena mais formosa.
PASSANDO DOUS FRADES FRANCISCANOS PELA PORTA DE AGUEDA PEDINDO
ESMOLLA, DEO ELA UM PEYDO, E RESPONDEO HUM DELLES ESTAS PALAVRAS
"IRRA, PARA TUA THIA"
(continua...)
MATOS, Gregório de. Andanças de uma viola de cabaça. In: Obra poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.