Por Gregório de Matos (1696)
3
Judas vendeu por dinheiro
a seu Mestre, a seu Rabi,
a vós nem maravedi
vos rendeu ser mau vendeiro:
Judas teve o paradeiro
da sua dor, e fadiga
numa figueira inimiga,
e vós de puro coitado
para seres enforcado,
nem figueira achais, nem figa.
4
As custas me heis de pagar
em ser tido por velhaco,
e por velhaco, e por caco
vos hei de os cacos quebrar:
caco não há de ficar
no vosso casebre inteiro
e por velhaco embusteiro
a vossa casa velhaca
terão por caco de caca,
e a vós por caco, e caqueiro.
5
Sois um simples, e um coitado,
e a mim nada me acobarda,
pois furtando-me uma albarda
vós ficastes o albardado:
ficai agora ensinado
a andar pelo barbicacho,
com focinho triste, e baixo,
vendo, que como ruim
me furtastes um rocim
para cair dele abaixo.
6
Por traidor, e por falsário
a sentença vos condena,
e para dar-vos a pena,
foi curto o vocabulário:
esgotou-se o Calendário
das nossas execuções,
e por encurtar razões
temi, que no caso atroz
cheirasses ao duro algoz
os fundilhos dos calções.
MATOS, Gregório de. Letrados. In: Obra Poética. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.