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#Sermões#Retórica

Sermão de Santo Inácio

Por Padre Antônio Vieira (1669)

Viu Ezequiel um carro misterioso que se movia sobre quatro rodas vivas, e tinha por nome o carro da glória de Deus. Tiravam por este carro quatro animais enigmáticos, cada um com quatro rostos: de homem, de águia, de leão, de boi, com que olhavam para as quatro partes do mundo. Em cima, sobre trono de safiras, aparecia um homem todo abrasado em fogo ou vestido de labaredas: A lumbis desuper; et a lumbis deorsum, quasi species ignis splendentis7. Que representasse este carro a religião da Companhia de Jesus, muitos autores o disseram. Chamava-se carro da glória de Deus, porque esta foi a empresa de Santo Inácio: Ad majorem Dei gloriam. Assentava sobre quatro rodas, porque essa é a diferença da Companhia As outras religiões geralmente estribam em três rodas, isto é, em três votos essenciais; mas a Companhia, em quatro. Em voto de pobreza, em voto de castidade, em voto de obediência, como as demais, e em quarto voto de obediência particular ao Sumo Pontífice. Olhavam os animais juntamente para as quatro partes do mundo, porque este é o fim e instituto da Companhia: ir viver ou morrer em qualquer parte do mundo, onde se espera maior serviço de Deus e proveito das almas. Tinham rosto de homem, de águia, de leão, de boi; de homem, pelo trato familiar com os próximos: de águia, pela ciência com que ensinam e escrevem; de leão, pela fortaleza com que resistem aos inimigos da fé; de boi, pelo trabalho com que cultivam a seara de Cristo, passando tantas vezes do arado ao sacrifício. No povoado, homens; no campo, bois; no bosque, leões; nas nuvens, águias. E para que a explicação não fique à cortesia dos ouvintes, onde a Escritura, falando desses animais, diz: Animalia tua (Sl.67,11), leu Arias Montano: Viri societatis tuae: os varões da vossa Companhia, Senhor. O homem abrasado em fogo que se via no alto do carro, não tem necessidade de declaração: isso quer dizer Inácio, o fogoso, o abrasado, o ardente. Isto suposto:

Viu Ezequiel este homem de fogo, que ia triunfante no carro, e querendo descrever a semelhança que tinha: Et de medio ignis quasi species, escreveu estas sete letras: C. H. A. S. M. A. L. Assim estão no original hebreu, em cujo texto falo. E posto que estas letras juntas fazem Chasmal, palavra de duvidosa significação, e que só esta vez se acha nas Escrituras, os cabalistas, como refere Cornélio, querem que sejam letras simbólicas, de que se acham muitos exemplos e mistérios no texto sagrado. Nas letras que viu Baltasar e interpretou Daniel, três palavras significavam três sentenças, e não estava escrito mais que o princípio de cada uma. Nas quatro letras do nome Adão, como notou S. Justino, e depois dele, em diversos lugares, Santo Agostinho, significou Moisés as quatro partes do mundo, porque as quatro letras do nome Adão, conforme o texto grego, são as quatro primeiras com que se escreve oriente, poente, setentrião, e meio-dia. Do mesmo modo lemos no terceiro Livro dos Reis que Semei amaldiçoou a Davi maledicione pessima (3 Rs. 2,8), e no hebreu, como declara S. Jerônimo, contém esta palavra cinco letras, cada uma das quais significa dicção inteira, e cada uma, uma maldição particular, que começa pela mesma letra. Finalmente, se havemos de dar fé a Corásio, este foi o mistério com que as sibilas escreveram aquelas quatro letras S. P. Q. R., as quais os romanos aplicaram às suas bandeiras, entendendo por elas: Senatus, Populus Que Romanus, sendo que a verdadeira significação era: Salva Populum Quem Redemisti.8 Ao nosso ponto agora e às nossas letras.

Seja o sentido alegórico ou acomodatício, como mais quiserem os doutos. Viu Ezequiel o homem de fogo que ia no alto do carro, quis escrever a semelhança que tinha: De medio ignis quasi species (Ez. 1,4), e o que fez foi deixar somente apontado naquelas letras misteriosas, não a semelhança que tinha, senão os princípios das semelhanças com que se lhe representara, como se sucedera a Ezequiel com Inácio, o mesmo que ao pintor de Roma.

(continua...)

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