Por Padre Antônio Vieira (1657)
Não só abrandou, ou apagou no sol os rigores do fogo, senão também os rigores da luz. O sol não é só rigoroso e terrível no fogo com que abrasa, senão também na luz com quê alumia. Em aparecendo no Oriente os primeiros raios do sol, como se foram archeiros da guarda do grande rei dos planetas, vereis como vão diante fazendo praça, e como em um momento alimpam o campo do céu, sem guardar respeito nem perdoar a coisa luzente. O vulgo das estrelas, que andavam como espalhadas na confiança da noite, as pequeninas somem-se, as maiores retiram-se, todas fogem, todas, se escondem, sem haver nenhuma, por maior luzeiro que seja, que se atreva a parar nem a aparecer diante do sol descoberto. Vedes esta majestade severa? Vedes este rigor da luz do sol, com que nada lhe pára, com que tudo escurece em sua presença? Ora, deixai-o vir ao signo de Virgem, e vereis como essa mesma luz fica benigna e tratável.
Viu S. João no Apocalipse um novo signo celeste: Signun magnun apparuit in caelo (Apc. 12,1). Era uma mulher vestida do sol, calçada da lua e coroada de estrelas: Mulier amicta sole, luna sub pedibus ejus, et in capite ejus corona stellarum duodecim (Ibid.). Não reparo no sol e na lua; no sol e nas estrelas reparo. Calçada da lua, e vestida de sol, bem pode ser, porque diante do sol também aparece a lua. Mas vestida de sol, e coroada de estrelas? Sol e estrelas juntamente? Não é possível, como acabamos de ver. Pois se na presença do sol fogem e desaparecem as estrelas, e o sol estava presente, e tão presente no vestido da mesma mulher, como apareciam nem podiam aparecer as estrelas da coroa? Aí vereis quão mudado está o sol depois que vestiu uma mulher, ou depois que uma mulher o vestiu a ele12! Este signo em que o sol apareceu a S. João, era o signo de Virgem: Signum magnum apparuit in caelo: Mulier amicta sole. E depois que o sol entrou no signo de Virgem, depois que o sol se humanou nas entranhas da Virgem Maria, logo os seus raios não foram temerosos, logo a sua majestade não foi terrível, logo a grandeza de soberania da sua mesma luz foi tão benigna que já não fogem nem se escondem dela as estrelas, antes lhes consente que possam luzir e brilhar em sua presença. Assim amansou aquela luz divina o sol, noutro tempo tão severo, assim humanou a intolerável grandeza de sua luz, assim temperou e quebrou a força de seus raios. Para que vejamos quanto se deve alegrar neste dia, e quanto deve festejar o nascimento desta benigna luz o gênero humano todo, e mais aqueles que mais têm ofendido o Sol. Quantas vezes havia de Ter o Sol de justiça abrasado o mundo? Quantas havia de ter fulminado com os seus raios as rebeldias de nossas ingratidões, e as abominações de nossos vícios, se não fora pela benignidade daquela luz? Para isso nasceu e para isso nasce hoje: para o fazer humano antes de nascer, e para lhe atar as mãos e os braços depois de nascido: De qua natus est Jesus.
V
Terceira razão: a luz é mais universal; o sol é limitado no tempo e no lugar. Diversidades entre o sol material e o sol de justiça. O sol de justiça e as trevas do Egito. O papa Inocêncio III e a comparação do Cântico dos Cânticos.
O terceiro título, por que se deve mais festejar o dia deste nascimento, é por ser a luz mais universal. É a luz mais universal que o sol porque o sol nunca alumia mais que meio mundo e meio tempo; a luz alumia em todo o tempo e a todo o mundo. O sol nunca alumia mais que meio mundo, porque quando amanhece para nós, anoitece para os nossos antípodas, e quando amanhece aos antípodas, anoitece para nós. E nunca alumia mais que meio tempo, porque das vinte e quatro horas do dia natural as doze assiste em um hemisfério, as doze no outro. Não assim a luz. A luz não tem limitação de tempo nem de lugar: sempre alumia, e sempre em toda parte, e sempre a todos. Onde está o sol, alumia com o sol, onde está a lua, alumia com a lua, e onde não há sol nem lua, alumia com as estrelas, mas sempre alumia. De sorte que não há parte do mundo, nem movimento de tempo, ou seja dia ou seja noite, em que, maior ou menor, não haja sempre luz. Tal foi a disposição de Deus no principio do mundo. Ao sol limitou-lhe Deus a jurisdição no tempo e no lugar; à luz não lhe deu jurisdição limitada, senão absoluta para todo o lugar e para todo o tempo. Ao sol limitou-lhe Deus tempo, porque mandou que alumiasse o dia: Luminare majus ut praeesset diei (Gên. 1,16); e limitou-lhe lugar, porque só quis que andasse dentro dos trópicos de Câncer e Capricórnio, e que deles não saísse. Porém à luz, não lhe limitou tempo, porque mandou que alumiasse de dia por meio do sol, e de noite por meio da lua e das estrelas: Luminare majus ut praeesset diei; luminare minus ut praeesset nocti, et stellas (ibid.). E não lhe pôs limitação de lugar, porque quis que alumiasse não só dentro dos trópicos, senão fora deles, como faz a luz, que dentro dos trópicos alumia por meio do sol e da lua, e fora dos trópicos por meio das estrelas, para que por este modo, de dia e de noite, no claro e no escuro, na presença e na ausência do sol, sempre houvesse luz como há.
(continua...)
Fonte: VIEIRA, Padre Antônio. Sermão da Sexagésima. Disponível em: http://www.ep.com.br/livros_vest/sermoes.pdf . Acesso em: 13 ago. 2026.