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#Contos#Literatura Brasileira

Um para o outro

Por Machado de Assis (1879)

A amiga de Henriqueta, que assim lhe falou, à porta da casa, quando viu aparecer Julião, era uma moça de vinte anos, alegre e inquieta como uma andorinha. Chamava se Fernanda, era filha do comendador Silva, que fora empregado antigo e conceituado, em um dos bancos da Corte, e morrera dois anos antes. O comendador deixou alguma coisa à família, que podia assim viver a coberto de necessidades; e, porque a mãe tinha economia e prudência, era difícil que tais necessidades sobreviessem nunca.

Fernandinha, que assim lhe chamavam a família e as amigas, era mui graciosa e elegante. Não tinha a beleza que impõe, nem a que eleva, nem a que faz cismar: o tipo era o da comum gentileza — um pouco de beauté du diable. Mas, além desta vantagem, que não era pouca, tinha as qualidades morais, que eram boas e sãs. Era dessas criaturas lépidas, ágeis, que gostam de rir muito, e de picar também, mas picar sem veneno nem ódio, só para ter ocasião de agitar as asas de andorinha e dar três giros no ar. De aparência galhofeira e frívola, escondia um coração bom, compassivo, e até alguma coisa mais, porque lance houve em que ela deu mostras de muita constância e resolução.

Era solteira, e dizia-se que um primo, prestes a formar-se em S. Paulo, seria o marido dela. Não se sabia bem disso: mas dizia-se a coisa, e acreditava-se como todas as coisas que ninguém sabe se verdadeiramente existem; basta que cheire a mistério, e se murmure ao ouvido.

— O Juca? disse ela um dia em que alguém lhe fez uma alusão a isso; pode ser.

— Então é?

— Pode ser.

Imagina-se o que foi o passeio à Tijuca, com semelhante companheira, e facilmente se acreditará que a excursão se repetisse daí a um mês ou seis semanas. Fernandinha usara de todas as liberdades concedidas às pessoas estouvadas: embirrou com o ar sério de Julião e não o deixou tranqüilo muito tempo; dava-lhe o braço, seguia com ele, tornava atrás, deixava-o, chamava-lhe urso. Julião sorria, e para não justificar muito o dito da moça, buscava também ser estouvado e alegre. Alegre pode ser, mas estouvado é que não: tinha uma agitação afetada e sem graça.

— Deixe-se disso, murmurou ela ao ouvido de Julião; é melhor ficar sendo urso. Eu gosto dos ursos.

— Já viu algum? perguntou ele.

— Sonho às vezes com um... Não é com o senhor, acrescentou a moça vivamente.

Henriqueta saboreou muito o passeio; pareceu-lhe que conciliara Julião e Fernandinha. Disse-o em casa à tia, e a ele mesmo.

— Conciliar? replicou o irmão. Creio que não era impossível.

— Mas difícil...

— Talvez difícil, porque a tua amiga é simplesmente doida.

— Tem uns modos acriançados, concordou a tia.

— Não acha? disse Julião.

— Pode ser que tenha os modos, interveio Henriqueta, mas só os modos; é muito boa moça, muito afetuosa, muito sincera e bonita, e eu gosto de ver uma cara bonita.

No vidro da janela, a que se encostara, Julião rufava com os dedos, olhando para fora, assim como que distraído ou pensativo; da maneira que Henriqueta acabou o elogio sem contestação e sem ouvintes. A tia retirara-se antes que ela acabasse de falar; e Julião não atendeu ao resto.

VIII

Um dia, em casa de Julião, estando já estreitadas as relações entre as duas famílias, Fernandinha declarou ao irmão de Henriqueta que descobrira uma coisa importante e ia revelar-lhe.

— Importante? disse ele.

— Im-por-tan-tís-si-ma, confirmou a moça com o seu ar mais sonso.

— Que é?

— Descobri uma coisa que o senhor sente a meu respeito.

E dizendo isto, Fernandinha chegou os olhos ao rosto de Julião, que empalideceu. Ela não empalideceu, corou muito, e calou-se um instante.

— Que sinto eu? Vá lá, diga.

— O senhor odeia-me, concluiu a moça.

Julião riu-se, e pareceu desabafado de uma opressão.

— Não é verdade? perguntou ela.

— Pura verdade.

— Agora o que eu não sei é o motivo do ódio, continuou a moça; ao menos não me lembra que lhe tivesse feito nada.

— Nem eu, mas deve ter-me feito alguma coisa, visto que lhe tenho ódio, e ódio de morte.

— Não será de morte, mas é ódio...

Julião ouviu-a, mas sem comoção. Fernandinha falou ainda largo tempo, mas o assunto tinha o defeito de ser monótono. Quando se separaram, Julião acompanhou-a com os olhos, calado e pensativo; ao cabo de alguns minutos, murmurou:

— Por que me vens tu tentar, anjo rebelde? Deixa-me só comigo, ou espera-me; guarda contigo essa chama que te sinto luzir nos olhos, e talvez seja amor... talvez!

Fernandinha, que se afastara lentamente, ia a revolver as palavras escutadas e a cavar o pensamento delas.

— Creio que me ama, dizia ela consigo; pode ser que não, mas eu creio que me ama... Aquela palidez, aquele tremor da voz... Ama-me; diga o que quiser, mas estou certa... creio.., afirmo.., espero que me ame...

(continua...)

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