Por Machado de Assis (1876)
O Sr. Alvarenga ia saboreando o café, como entendedor, e contando ao bacharel a maneira por que dera a fita à filha do desembargador.
— Ela estava a brincar comigo, enquanto eu tirava do bolso alguns papéis para dar ao pai. Com os papéis veio a fita. “Que bonita fita!” disse ela. E pegou na fita, e pediu-me que lha desse. Que faria V. S.ª no meu caso?
— Dava.
— Foi o que eu fiz. Se visse como ficou alegre!
O Sr. Alvarenga acabara de tomar o café, ao qual fez um novo elogio; e depois de sorver voluptuosamente uma pitada, continuou:
— Já eu não me lembrava da fita quando hoje o Sr. João Gomes me contou o caso. Era difícil achar a fita, porque isto de crianças V. S.ª sabe que são endiabradas, e então aquela!
— Está rasgada? perguntou Gustavo ansioso por vê-lo chegar ao fim. — Parece que não.
— Ah!
— Quando lá cheguei perguntei com muita instância pela fita à senhora do desembargador.
— E então?
— A senhora do desembargador respondeu-me com muita polidez que não sabia da fita; imagine como fiquei. Chamou-se porém a menina, e esta confessou que uma sua prima, moça de vinte anos, lhe tirara a fita da mão, logo no dia em que eu lha dei. A menina chorara muito, mas a prima dera-lhe em troco uma boneca.
Esta narração foi ouvida por Gustavo com a ansiedade que o leitor naturalmente imagina; as últimas palavras, entretanto, foram um golpe mortal. Como haver agora essa fita? De que maneira e com que razões, se iria procurar nas mãos da moça o objeto desejado?
Gustavo comunicou estas impressões ao Sr. Alvarenga, que depois de sorrir e tomar outra pitada, lhe respondeu que dera alguns passos a ver se a fita pudesse vir parar às suas mãos.
— Sim?
— É verdade; a senhora do desembargador ficou tão penalizada com a ansiedade que eu mostrava, que me prometeu fazer alguma coisa. A sobrinha mora no Rio Comprido; a resposta só pode estar nas suas mãos depois de amanhã porque eu amanhã tenho muito que fazer.
— Mas virá a fita? murmurou Gustavo com desânimo.
— Pode ser, respondeu o procurador; tenhamos esperança.
— Com que lhe hei de pagar tantos favores? disse o bacharel ao procurador que se levantara e pegara no chapéu...
— Sou procurador... dê-me alguma coisa em que eu possa prestar-lhe os meus serviços.
— Oh! sim! a primeira que me vier agora é sua! exclamou Gustavo para quem uma causa era ainda objeto puramente mitológico.
O procurador saiu.
— Então, até depois de amanhã? disse João que ouvira quase toda a conversa, colado no corredor.
— Sim, até depois de amanhã.
CAPÍTULO VII
O dia em que o procurador devia voltar à casa de Gustavo era o último do prazo marcado por Marianinha. Gustavo esperou por ele sem sair de casa; não queria aparecer sem estar desenganado ou feliz.
O Sr. Alvarenga não marcara hora. Gustavo acordou cedo, almoçou, e esperou até o meio-dia sem que o procurador desse sinais de si. Era uma hora quando apareceu.
— Há de desculpar-me, disse ele logo ao entrar; tive uma audiência na segunda vara, e por isso...
— Então?
— Nada.
— Nada!
— Ela tem a fita e declara que a não dá!
— Oh! mas isso é impossível!
— Também eu disse isso, mas depois refleti que não há outro recurso senão contentarmo-nos com a resposta. Que poderíamos nós fazer?
Gustavo deu alguns passos na sala, impaciente e abatido ao mesmo tempo. Tanto trabalho para tão triste fim! Que importava que ele soubesse onde parava a fita, se não podia havê-la às mãos? O casamento estava perdido; o suicídio unicamente.
Sim, o suicídio. Apenas o procurador Alvarenga saiu da casa de Gustavo, este sondou o seu coração e mais uma vez se convenceu de que não podia resistir à recusa de Marianinha; senão matar-se.
“Caso-me com a morte!” rugiu ele surdamente.
Outra reminiscência de melodrama.
Assim assentado o seu plano, saiu Gustavo de casa, logo depois de ave-marias e dirigiu-se para a casa de D. Leonarda. Entrou comovido; estremeceu quando deu com os olhos em Marianinha. A moça tinha o mesmo ar severo com que lhe falara a última vez.
— Por onde andou estes três dias? disse D. Leonarda.
— Estive muito ocupado, respondeu secamente o moço, e por isso... As senhoras têm passado bem?
— Assim, assim, disse D. Leonarda.
Depois:
“Estes pequenos andam arrufados!” pensou ela.
E posto fosse severíssima em pontos de namoro, todavia compreendeu que para explicar e acabar arrufos a presença de uma avó era de algum modo prejudicial. Pelo que, assentou retirar-se durante cinco minutos (de relógio na mão), a pretexto de ir ver o lenço de tabaco.
Apenas se acharam sós os dois namorados, rompeu o seguinte diálogo a muito custo de ambos, porque nenhum deles queria começar primeiro. Foi Gustavo quem cedeu:
— Não lhe trago a fita.
— Ah! disse a moça com frieza.
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de uma fita azul. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, dez. 1875 a fev. 1876.