Por Eça de Queirós (1925)
E logo dias depois, a 23 do mesmo mez, diz mais explicitamente: a Em presença da sua resposta, passo a dar-lhe algumas Informações sobre o meu novo livro — para o seu esclarecimento proprio, e para poder fazer os annuncios e reclames necessarios ; e peço que os faça generosamente, ahi e no Brasil. O livro intitula-se e Como vê, é uma blographi8 : a biographia d'um indivi duo imaginario, escripta por um su4eito imaginario.
O Conde d'Abranhos é um estadista, orador, ministro, a presidente do Conselho, etc. etc., que, sob esta apparen eia grandiosa, é um pattfe, um pedante e um burro. O livro é, além d'uma critica dos nossos costumes politicos, a a exposição das pequenezes, estupidezes, maroteirazinhas e pieguices que se occultam sob um homem que um paiz inteiro proclama grande. O Zagallo, secretario, é tão tolo como o mi nistro, e o piquant do livro é que, querendo fazer a apologia do seu amo e protector: o idiota Zagallo apresenta-nos na sua crua realidade a nullidade do personagem. Mas para se a avaliar este elemento comico, é necessario a cousa.
c Sendo uma biographia, o livro é implicitamente um ro mance, porque o Conde d'Abranhos, como homem, tem paixões, casa, é enganado, bate-se em duello, atravessa epi sodios grotescos ou dramaticos, etc. etc. De tal sorte que o livro é verdadeiramente um pequeno romance, apresentado sob uma fórma nova, que, creio, não tem precedentes em litteratura.
Tal é o livro
Parece, porém, que a fdéa núo agradou muito a Ernesto Chardron, e o volumezinho, admiravel de verve e humorismo, é logo posto de parte, um mez depois de ter nascido, com o mesmo bom humor e a mesma vivacidade com que fôra concebido, escripto e offerecido ao editor. A carta que o condemna é datada ainda de Dinan, a {O de Julho de 79 :
Não comprehendo o que me diz. Fanando do Conde d'Abranhos, exprime surpreza de que etle nao appareça c@m ao meu nome I Um livro meu sem o meu nome ! I Que quer a v. Ex.a dizer? Pois eu creio que havia n'elle mais ele mentos de successo ruidoso que em nenhum outro dos livros «meus —ou alheios, Em todo o caso, n'en parlons pluslt
E todavia eu creio bem qu'on en parlera encore, et Ionotemps!
Logo desinteressado d'este pobre Gonde d'Abranhos, vêmos por uma carta de IO de Agosto de 79, que meu Pae volta a dedicar-se à Capital : Logo que acabe o Amaro, come« çarei com A Capital. Núo creio que isso me leve mais de 15 dias
Pouco depois, porém, surge, entre o auctor e o editor, um desentendimento de ordem puramente material. Havia de certo entre enes algum contracto para a publicação da Capttal, pequena novena de 200 paginas, que, como vimos, a gira já 600 ! Chardron, bom negociante, reclamava o livro; e meu Pae, defendendo o seu trabalho, escrevia-lhe em 20 de Outubro de 79 : e . . . o nosso ultimo accordo, proposto em carta de V. Ex.a , era que se publicasse o Amaro em fins de Outubro ou começos de Novembro, e A Capital em principios do anno, É a este accordo que eu me cinjo, e para o cum prir trabalho noite e dia ! Da Capital nem fallemos ; vendi-lhe um livro de 200 paginas por 20 libras e estou a fa zer um volume de 600 V. Ex.a, se quizer, publicar A Capital, ou os capitulos que ahi tem da Capital. Eu não tea nho poder para lh'O impedir. São apenas tres capjtulos que não significam nada e que, publicados, pareceriam uma misa tificaçào, pois a acção do Romance não apparece n'elles e apenas se apresentam os personagens. Se o fizer, eu declaro pela imprensa que isso é apenas o começo d'um romance que tem mais de 600 paginas e que o publico deve portanto esperar que o romance seja publicado inteiro.
Parece no emtanto que chegaram rapidamente a um accordo. Qual foi esse accordo é difficil dizel-o. Não me foi possivel obter mais elementos sobre este periodo tão interessante, em que o Primo Baztlio acaba de sahir do prelo, em que a segunda edição do Padre Amaro, completamente refundida, está em vesperas de ser lançada a publico e se discute Já a publicação da Capital. Faltam completamente as cartas relativas a esta epocha de actividade extraordinaria.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.