Por Eça de Queirós (1875)
O cônego Dias ia explicando pachorrentamente ao pároco "o que lhe arranjara". Não lhe tinha procurado casa: seria necessário comprar mobília, buscar criada, despesas inumeráveis! Parecera-lhe melhor tomar- lhe quartos numa casa de hóspedes respeitável, de muito conchego - e nessas condições (e ali estava o amigo coadjutor que o podia dizer), não havia como a da S. Joaneira. Era bem arejada, muito asseio, a cozinha não deitava cheiro; tinha lá estado o secretário-geral e o inspetor dos estudos; e a S. Joaneira (o Mendes amigo conhecia-a bem) era uma mulher temente a Deus, de boas contas, muito econômica e cheia de condescendências...
- Você está ali como em sua casa! Tem o seu cozido, prato de meio, café...
- Vamos a saber, padre-mestre: preço? disse o pároco.
- Seis tostões. Que diabo! é de graça! Tem um quarto, tem uma saleta...
- Uma rica saleta, comentou o coadjutor respeitosamente.
- E é longe da Sé? perguntou Amaro.
- Dois passos. Pode-se ir dizer missa de chinelos. Na casa há uma rapariga, continuou com a sua voz pausada o cônego Dias. E a filha da S. Joaneira. Rapariga de vinte e dois anos. Bonita. Sua pontinha de gênio, mas bom fundo... Aqui tem você a sua rua.
Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada pelas altas paredes da velha Misericórdia, com um lampião lúgubre ao fundo.
- E aqui tem você o seu palácio! disse o cônego, batendo na aldraba de uma porta esguia.
No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto antigo, faziam saliência, com os seus arbustos de alecrim, que se arredondavam aos cantos em caixas de madeira; as janelas de cima, pequeninas, eram de peitoril; e a parede, pelas suas irregularidades, fazia lembrar uma lata amolgada.
A S. Joaneira esperava no alto da escada; uma criada, enfezada e sardenta, alumiava com um candeeiro de petróleo; e a figura da S. Joaneira destacava plenamente na luz sobre a parede caiada. Era gorda, alta, muito branca, de aspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham já em redor a pele engelhada; os cabelos arrepiados, com um enfeite escarlate, eram já raros aos cantos da testa e no começo da risca; mas percebiam-se uns braços rechonchudos, um colo copioso e roupas asseadas.
- Aqui tem a senhora o seu hóspede, disse o cônego subindo.
- Muita honra em receber o senhor pároco! muita honra! Há-de vir muito cansado! por força! Para aqui, tem a bondade? Cuidado com o degrauzinho.
Levou-o para uma sala pequena, pintada de amarelo, com um vasto canapé de palhinha encostado à parede, e defronte, aberta, uma mesa forrada de baeta verde.
- É a sua sala, senhor pároco, disse a S. Joaneira. Para receber, para espairecer... Aqui - acrescentou abrindo uma porta - é o seu quarto de dormir. Tem a sua cômoda, o seu guarda-roupa... - Abriu os gavetões, gabou a cama batendo a elasticidade dos colchões. - Uma campainha para chamar sempre que queira... As chavinhas da cômoda estão aqui... Se gosta de travesseirinho mais alto... Tem um cobertor só, mas querendo...
- Está bem, está tudo muito bem, minha senhora, - disse o pároco com a sua voz baixa e suave.
- É pedir! O que há, da melhor vontade...
- Oh criatura de Deus! interrompeu o cônego jovialmente, o que ele quer agora é cear!
- Também tem a ceiazinha pronta. Desde as seis que está o caldo a apurar...
E saiu, para apressar a criada, dizendo logo do fundo da escada:
- Vá, Ruça, mexe-te, mexe-te!...
O cônego sentou-se pesadamente no canapé, e sorvendo a sua pitada:
- É contentar, meu rico. Foi o que se pôde arranjar.
- Eu estou bem em toda parte, padre-mestre, disse o pároco, caçando os seus chinelos de ourelo.
Olha o seminário!... E em Feirão! Caía- me a chuva na cama.
Para o lado da Praça, então, sentiu-se o toque de cometas.
- Que é aquilo? perguntou Amaro, indo à janela.
- As nove e meia, o toque de recolher.
Amaro abriu a vidraça. Ao fim da rua um candeeiro esmorecia. A noite estava muito negra. E havia sobre a cidade um silêncio côncavo, de abóbada.
Depois das cometas, um rufar lento de tambores afastou-se para o lado do quartel; por baixo da janela um soldado, que se demorara nalguma viela do Castelo, passou correndo; e das paredes da Misericórdia saía constantemente o agudo piar das corujas.
- É triste isto, disse Amaro.
Mas a S. Joaneira gritou de cima:
- Pode subir, senhor cônego! Está o caldo na mesa!
- Ora vá, vá, que você deve estar a cair de fome, Amaro! - disse o cônego, erguendo-se muito pesado.
E detendo um momento o pároco, pela manga do casaco:
- Vai você ver o que é um caldo de galinha feito cá pela senhora! Da gente se babar!...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.