Por Eça de Queirós (1900)
Era com esse sombrio feito do seu vago avoengo que Gonçalo Mendes Ramires decidira em Coimbra, quando os camaradas da Pátria e das ceias o aclamavam "o nosso Walter Scott", compor um Romance moderno, dum realismo épico, em dois robustos volumes, formando um estudo ricamente colorido da Meia-Idade Portuguesa... E agora lhe servia, e com deliciosa facilidade, para essa Novela curta e sóbria, de trinta páginas, que convinha aos Anais.
No seu quarto do Bragança abriu a varanda. E debruçado, acabando o charuto, na dormente suavidade da noite de maio, ante a majestade silenciosa do rio e da Lua, pensava regaladamente que nem teria a canseira de esmiuçar as crônicas e os fólios maçudos... Com efeito! toda a reconstrução Histórica a realizara, e solidamente, com um saber destro, o tio Duarte. O Paço acastelado de Santa Irenéia, com as fundas carcovas, a torre albarrã, a alcáçova, a masmorra, o farol e o balsão: o velho Tructesindo, enorme, e os seus flocos de cabelos e barbas ancestrais derramados sobre a loriga de malha; os servos mouriscos, de surrões de couro, cavando os regueiros da horta; os oblatos resmungando à lareira as Vidas dos Santos; os pajens jogando no campo do tavolado - tudo ressurgia, com verídico realce, no Poemeto do tio Duarte! Ainda recordava mesmo certos lances: o truão açoitado; o festim e os uchões que arrombavam as cubas de cerveja; a jornada de Violante Ramires para o Mosteiro de Lorvão...
Junto à fonte mourisca, entre os olmeiros, A cavalgada pára...
O enredo todo com a sua paixão de grandeza bárbara, os recontros bravios em que se saciam a punhal os rancores de raça, o heróico falar despedido de lábios de ferro - lá estavam nos versos do titi, sonoros e bem balançados...
Monge, escuta! O solar de D. Ramires
Por si, e pedra a pedra se aluíra, Se jamais um bastardo lhe pisasse, Com sapato aviltado, as lajes puras!
Na realidade só lhe restava transpor as formas fluidas do Romantismo de 1846 para a sua prosa tersa e máscula (como confessava o Castanheiro), de ótima cor arcaica, lembrando o Bobo. E era um plágio? Não! A quem, com mais seguro direito do que a ele, Ramires, pertencia a memória dos Ramires históricos? A ressurreição do velho Portugal, tão bela no Castelo de Santa Irenéia, não era obra individual do tio Duarte - mas dos Herculanos, dos Rebelos, das Academias, da erudição esparsa. E, de resto, quem conhecia hoje esse Poemeto, e mesmo o Bardo, delgado semanário que perpassara, durante cinco meses, há cinqüenta anos, numa vila de Província?...! Não hesitou mais, seduzido. E enquanto se despia, depois de beber aos goles um copo d'água com bicarbonato de soda, já martelava a primeira linha do conto, à maneira lapidária da Saíambô: - "Era nos Paços de Santa Irenéia, por uma noite de inverno, na sala alta da Alcáçova..."
Ao outro dia, procurou José Lúcio Castanheiro na repartição dos Próprios Nacionais, à pressa porque, depois duma conferência no Banco Hipotecário, ainda prometera acompanhar as primas Cheias a uma Exposição de Bordados na livraria Gomes. E anunciou ao Patriota que, positivamente, lhe assegurava para o primeiro número dos Anais a Novela, a que já decidira o título - a Torre de D. Ramires:
- Que lhe parece?
Deslumbrado, José Castanheiro atirou os magríssimos braços, resguardados pelas mangas de alpaca, até a abóbada do esguio corredor em que o recebera:
- Sublime!... A Torre de D. Ramires!... O grande feito de Tructesindo Mendes Ramires contado por Gonçalo Mendes Ramires!... E tudo na mesma Torre! Na Torre o velho Tructesindo pratica o feito; e setecentos anos depois, na mesma Torre, o nosso Gonçalo conta o feito! Caramba, menino, carambíssima! Isso é que é reatar a tradição!
Duas semanas depois, de volta a Santa Irenéia, Gonçalo mandou um criado da quinta, com uma carroça, a Oliveira, á casa de seu cunhado José Barrolo, casado com Gracinha Ramires, para lhe trazer da rica livraria clássica que o Barrolo herdara do tio Deâo da Sé todos os volumes da História genealógica - "e (acrescentava numa carta) todos os cartapácios que por lá encontrares com o título de Crônicas do Rei Fulano' "~. Depois, do pó das suas estantes. desenterrou as obras de Walter Scott. volumes desirmanados do Panorama, a História de Herculano, o Bobo, o Monge de Cister. E assim abastecido, com uma farta resma de tiras de almaço sobre a banca, começou a repassar o Poemeto do tio Duarte, inclinado ainda a transpor para a aspereza duma manhã de dezembro, como mais congênere com a rudeza feudal dos seus avós, aquela luzida cavalgada de donas, monges e homens de armas que o tio Duarte estendera, através duma suave melancolia outonal, pelas veigas do Mondego...
Na palidez da tarde. entre a folhagem Que o outono amarelece...
Mas. como era então junho e a lua crescia. Gonçalo determinou por fim aproveitar as sensações de calor, luar e arvoredos, que lhe fornecia a aldeia - para levantar, logo à entrada da sua Novela. negro e imenso Paço de Santa Irenéia, no silêncio duma noite de agosto, sob o resplendor da lua cheia.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.