Por Camilo Castelo Branco (1889)
— “Não saberás mais nada, se fores impaciente. Imponho-te mesmo um profundo silêncio a respeito do que ouviste. À menor pergunta que me faças, deixote ralado por essa curiosidade indiscreta, que te faz parecer uma mulher de soalheiro. Eu contraí contigo a obrigação de te contar a minha vida ?”
— “Não ; mas contraístes com a minha alma a obrigação de eu me interessar na tua vida e nos teus infortúnios desde este momento.”
— “Obrigado, cavalheiro ! — Juro-te uma sincera amizade. — Hás-de ser o meu confidente.
Estava, outra vez, na platéia. Henriqueta aproximou-se ao quarto camarote da primeira ordem, firmou o pé de fada na frisa, segurou-se ao peitoril do camarote, e travou conversação com a família que o ocupava. Carlos acompanhou-a em todos esses movimentos, et preparou-se para um novo enigma.
Segundo o costume, as mãos de Henriqueta passaram por uma análise rigorosa. Não era possível, porém, fazê-la tirar a luva da mão esquerda.
— “Dominó, porque não deixas ver este anel ?” — perguntava uma senhora de olhos negros, e vestida de negro, como uma viúva rigorosamente enlutada.
— “Que te importa o anel, minha querida Sofia !?… Falemos de ti, aqui em segredo. Ainda vives melancólica, como a Dido da fábula ? Fica-te bem essa cor de esquifes, mas não sustentas o caráter artístico com perfeição. A tua tristeza é fingida, não é verdade ?”
— “Não me ofendas, dominó, que eu não te mereço essa injúria… A desgraça nunca se finge…”
— “Disseste uma verdade, que é a tua condenação. Eu, se tivesse sido abandonada por um amante, não vinha aqui dar-me em espectáculo a um baile de máscaras. A desgraça não se finge, é verdade ; mas a saudade esconde-se para chorar, e a vergonha não se ostenta radiosa desse sorriso que te brinca nos lábios… Olha, minha amiga, há umas mulheres que nasceram para esta época, e para estes homens. Há outras que a Providência caprichosa atirou a esta geração corrompida como os imperadores romanos atiravam os cristãos ao anfiteatro dos leões. Felizmente que tu não és das segundas, e sabes harmonizar com o teu gênio folgazão e desleixado uma hipocrisia que te vai bem num sofá de penas, onde tu recostas com um perfeito conhecimento das atitudes lânguidas das mulheres cansadas do Balzac. Eu, se fosse homem, amava-te por desfastio !… És a única mulher para quem este país é pequeno. Devias conhecer o Regente, e Richelieu, e os abades de Versalhes, e as filhas do Regente, e as Heloísas desenvoltas dos abades, e as aias da duquesa do Maine… et cetera. Isto por cá é pequeníssimo para as Frineias. Uma mulher da tua índole morre asfixiada neste ambiente pesado em que o coração, nas suas expansões românticas, encontra, quase sempre, a mão burguesa das conveniências a tapar-lhe os respiradouros… Parece que te enfadas de mim ?”
— “Não te enganas, dominó… Obsequeias-me se me não deres o incômodo
de te mandar retirar.”
— “És muito delicada, minha nobre Sofia !… Já agora, porém, deixa-me darte uma idéia mais precisa desta mulher que te enfada, e que, apesar das tuas injustiças, se interessa na tua sorte. Diz-me cá… Tens uma sincera paixão, uma saudade pungente por aquele belo capitão de cavalaria que te deixou, tão sozinha, com as tuas agonias de amante ?”
— “Que te importa ?…”
— “És cruel ! Pois não ouves o tom sentimental com que te faço esta pergunta ?… Quantos anos tens ?…”
— “Metade e outros tantos…”
— “A resposta não me parece tua… Aprendeste essa vulgaridade com a filha do teu sapateiro ?… Ora olha : tu tens 38 anos, a não ser mentiroso o assento de batismo, que se lê no cartório da freguesia dos Mártires em Lisboa.
Aos vinte anos amavas com ternura um tal Pedro Sepúlveda. Aos vinte e cinco, amavas com paixão, um tal Jorge Albuquerque. Aos 30, amavas com delírio, um tal Sebastião de Meireles. Aos 35, amavas, em Londres, com frenesi um tal… Como se chamava… Não me recordo.. Diz-me, por piedade, o nome desse homem, que, senão, fica o meu discurso sem o efeito do drama… Não dizes, má ?… Ai !…
Eu tenho aqui a mnemônica…”
Henriqueta tirou a luva da mão esquerda, e deixou ver um anel… Sofia estremeceu, e corou até às orelhas.
— “Já te recordas ?… Não cores, minha querida amiga… Que não fica bem ao teu caráter de mulher que conhece o mundo pela face positiva… Deixa-me agora arredondar o período, como dizem os literatos… Ora tu, que amaste desenfreadamente cinco antes do sexto homem, como queres fingir, debaixo desse vestido negro, um coração varado de saudades e órfão de consolações ?… Adeus, minha bela hipócrita…”
Henriqueta desceu elegantemente do seu poleiro, e deu o braço a Carlos.
CAPÍTULO IV
Eram três horas.
Henriqueta disse que se retirava, depois de vitimar com seus ligeiros, mas pungentes gracejos, alguns daqueles muito que provocam o sarcasmo só com a presença, só com o vulto corporal, só com a sensaboria de um remoque parvo e pretensioso. O Carnaval é uma exposição anual destes infelizes.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coisas que só eu sei. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16587 . Acesso em: 28 jun. 2026.