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#Romances#Literatura Portuguesa

Coração, Cabeça e Estômago

Por Camilo Castelo Branco (1862)

Eu queria comunicar a exuberância da minha ventura, mas tive sempre para mim que a felicidade querse recatada para não suscitar invejas: é ela como a fina essência das flores destiladas, que perde o aroma, destapado o cristal que a encerra. Não contei nada ao meu amigo; simulei até desapego das mulheres mais belas do baile, e da preferida nem se quer falei.

Ao romper de alva, vi que um rancho de meninas desciam ao jardim e colhiam flores. A minha amada ficou à janela conversando com senhoras idosas. “Tragam-me a mim uma rosa de musgo”, disse ela às amigas. E as amigas volveram sem a rosa. Desci ao jardim, colhi duas rosas aljofradas das lágrimas da aurora, pedi licença para lhes oferecer, e disse: “Não as enxuguei, para não privar as florinhas das carícias de um anjo.” Este meu dito foi celebrado em Porto Brandão.

Daqui encetámos um colóquio, em que o meu acanhamento foi digno de lástima. Perguntei-lhe abruptamente onde morava; e ela, com a mais casta naturalidade, respondeu-me:

— Moro na rua da Rosa das Partilhas, n.º 101, segundo andar.

Naquele dia vim para Lisboa, visto que o meu amigo se retirava. Quinze dias seguidos fui à Rua da Rosa, e vi sempre fechadas as janelas do segundo andar.

Defronte morava uma estanqueira. Afreguesei-me para lhe captar a benevolência: e, ao décimo sexto dia, perguntei-lhe quem morava naquela casa.

— Ali mora um sujeito que é empregado no contrato do tabaco — disse ela.

— E tem família?

— Tem sim senhor. Vejo lá umas duas ou três meninas que me parecem irmãs dele, ou coisa parecida.

— Uma de olhos pretos e cabelos cor de azeviche, será irmã?

— a falar-lhe a verdade, senhor, a cor que ela tem nos olhos e no cabelo na sei. Ali há uma bonitota, que é mais triste que as outras e está sempre a ler, aos dias santos. As outras têm assim um ar de doidas, que faz rir a gente. Namoram de lenço branco e à meia-noite estão à janela a papaguear para a rua, que é mesmo um escândalo. Que eu, a falar a verdade, meto-me cá com a minha vida e não quero saber quem é, nem o que faz, a vizinhança.

— Sabe dizer-me onde estão agora?

— Estão fora da terra; mas onde, não sei. Ontem andavam lá a lavar a casa; é que não tardam aí.

Nesse mesmo dia, à noite, encontrei no Marrare das Sete Portas o cavalheiro que me tinha apresentado à mulher querida, em Porto Brandão. Falámos muito da divertida noitada e nas mulheres que converteram em paraíso terreal a casinha campestre. Ébrio de amor, deixei-me ir ao sabor do coração indiscreto e falei na mulher, cuja imagem me não dera tréguas duma hora ao espírito cobiçoso dela. O sujeito destramente se insinuou na minha confiança e conseguiu que eu lhe dissesse a morada da dama a quem ele me apresentara.

Riu-se o indivíduo, e sofreou logo a expansão.

— De que ri Vossa Senhoria? - Perguntei com desgosto.

Deteve-se o homem a cismar, e respondeu:

- Rio da pouca ou nenhuma penetração da mocidade. Não se recorda de eu lhe ter dito que aquelas senhoras amavam toda a gente?

- E se o senhor se apaixonar?

- Apaixonado estou eu.

- Pois pior. Suponha agora que aquela mulher o menospreza e ridiculiza!

- Suicido-me!

- Isso é asneira, Sr. Silvestre! Olhe eu já amei Clotilde.

- Chama-se Clotilde?

- Chama. Que nome!, que poesia!, que lirismo!, não acha?

- Acho!... Clotilde! Há não sei quê das paixões sanguentas da Idade Média neste nome!... Clotilde! Que bem fadado nome! Tem magia!... Clotilde!... Então o senhor amou-a?

- Amei.

- E depois?

- Apaixonei-me. Pedi-lhe o coração exclusivo, e ela disse-me que o exclusivo do coração só o daria com o exclusivo da mão. Entende o fraseado?

- Perfeitíssimamente. Queria dizer que só amaria exclusivamente o marido.

- É isso mesmo. Eu era menor, e meu pai negava-me licença para casar. Clotilde era pobre, e eu, sem os benefícios de meu pai, era indigente: Tão inútil homem era eu que fazia versos, e que versos, ó santo Deus!

- E ela ama poesia?

- Gostava das décimas e embirrava com as odes. Fiz-lhe muita décima: estão todas impressas no Ramalhete. Vamos ao essencial. A paixão cegou-me. Clotilde, sabedora da repugnância de meu pai, parecia disposta a aproveitar o tempo com outro namoro. Suspeitei esta infernal resolução, e... que passo eu dei, Sr. Silvestre!...

que passo!...

- Que passo deu o senhor?!

- Casei com ela!

- O quê?! - exclamei eu, varando de agulhadas nos olhos e nos ouvidos.

- Casei com Clotilde.

- Pois Clotilde é casada?...

- Comigo; há cinco anos, quatro meses e nove dias!

Dito isto, o empregado público, depois duma gargalhada estridente, afectou a mais cómica das seriedades e continuou:

(continua...)

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