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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Os editores, porém, observando que o mundo se entortava cada vez mais para eles, recomendaram ao escritor moralista que vendesse a eles romances e a quem quisesse os sermões. Ora, deu-se o caso de que este meu amigo era eu em pessoa.

Apesar dos baixios em que foram a pique os meus livros sérios, teimo em ir neste rumo, discorrendo oportunamente acerca das grandes coisas e dos grandes factos, como se via do anterior capítulo.

Volvendo a concluir as reminiscências que tenho do antigo Afonso de Teive, restame juntar que o deixei em Lisboa no ano de 1851, e vim para o Minho, onde me disseram quem era Palmira, falando eu em Afonso de Teive a um cavalheiro de Braga.

Em primeiro lugar, Palmira tinha outro nome na sua terra. Fora educada num convento; saíra do convento para casar com o filho do seu tutor, moço idiota e abominável; e saíra de sua casa para a de Afonso de Teive, o qual por um acaso a vira nos arvoredos do Senhor do Monte, e de se verem à mesma hora em que ambos, embelezados no rumorejar de árvores e fontes, pediam ao Céu, ela o homem e ele a mulher do seu destino, resultou amarem-se tanto loto ali protestaram tacitamente imolar aos deuses infernais o marido idiota-destino misérrimo que não discrimina entre idiotas e atilados. Estas informações saíram-me com o tempo inexactas em muitos acidentes.

Não adiantou mais nada o cavalheiro bracarense; e isto já não era pouco para o meu espanto.

Nessa mesma época ocasionou-se-me conhecer o marido de Teodora, melhorada em Palmira. Andava ele na feira de S. Brás, em Landim, a tantos de Fevereiro, comprando bois e vendendo cevados. Não lhe vi no semblante leve sombra de dissabor, nem osso descarnado. Vi que ele comia à tripa forra um chorumento jantar de carnes frias, em que predominavam as galináceas. A sua direita estava uma mocetona espadaúda, escarlate, alta de peitos e refractária a toda a ideia de amor fino.

Disseram-me que esta moça apreciara devidamente o coração rejeitado por Teodora e assava com perfeição as louras galinhas de que o marido abandonado hauria vigor com que resistia briosamente à sua desgraça. Vi tudo isto, e fiquei satisfeito. A gente folga de ver assim remediadas as enfermidades da natureza. Quando em casos análogos não há vitima nem algoz e as personagens se acomodam na livre prática da liberdade dos cultos, bem que o vicio não deixa de ser vicio, é contudo consolador observarmos que uma certa filosofia é a melhor ortopedia para os aleijões de nascença de que a tona humanidade coxeia à dezanove séculos.

É o que eu sabia e mais nada.

Como Afonso caiu em esquecimento, nunca me deu para perguntar que era feito dele. As minhas desventuras não me davam férias para farejar as alheias. Se alguma vez me passou pela ideia a esposa infiel do feirante de bois e cevados, imaginei-a reconciliada com o marido, e assim duramente castigada pela Providência. Enquanto ao sedutor, apostaria que ele, depois de ter desbaratado a casa, andava por Lisboa obscuramente solicitando um lugar de amanuense de secretaria ou aspirante de alfândega, se é que não tinha ido para o Brasil, com o seu diploma de bacharel em Filosofia, coleccionar conchas por conta de algum museu de história natural.

Agora vê o leitor o meu assombro justificado! É inquestionavelmente este homem gordo de barbas intonsas, óculos e tamancos, o Afonso de Teive da Palmira de Lisboa.

Ele aqui vai subindo as escadas que nos levam à primeira sala. Cá estão em redor dele e de mim os oito filhos, que fazem bulha como trinta e dois. Creio que estou no pátio de um mestre-escola à salda da aula. Dois destes ferozes meninos tiram-me da mão o guarda-sol, abrem-no e fecham-no repetidas vezes, arremetendo contra os irmãos, que se defendem espancando a murros as varas da umbela, que gemem e entortam.

Afonso gosta dever aquilo, e eu finjo também que não desgosto, nem que receio de ser esfarrapado por aqueles inocentes. Passamos ao seguinte repartimento da casa: era a sala de visitas, mobilada de alfaias antigas, cadeiras encouradas com chapas reluzentes, grandes bancas de pausanto, com gavetas atauxiadas de frisos metálicos e de marfim.

- A decoração diz com as minhas barbas! - reflectiu o risonho Afonso. -Aqui é tudo português -acrescentou, mandando inutilmente calar a gritaria dos meninos, que, a meu ver, legitimavam a raiva infanticida de Herodes. - Até a linguagem é portuguesa de lei: olha que estou falando vernaculamente, meu amigo. Há catorze anos que tu me convidavas urbanamente a não insultar os Lucenas e os Sonsas com as minhas francesias. Vem ver a minha livraria; se não queres primeiramente ver minha mulher...

- Tenho muita honra e satisfação em ser apresentado a tua senhora-atalhei eu.

- Joaquim!-disse Afonso ao filho mais velho-, vai ver onde está tua mãe; se estiver na cozinha, diz-lhe que temos cá um hóspede, que não exige vestido de seda.

Que apareça como estiver.

(continua...)

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