Por Machado de Assis (1872)
Entraram os dois campeões na luta suprema. As condições eram aparentemente diversas, mas bem apreciadas eram iguais. Se Coutinho não ia lá com tanta freqüência, em compensação era o candidato para quem ela mais pendia; se Alberto tinha a facilidade de lhe falar mais vezes e estar mais assiduamente com ela, em compensação era o menos aceito dos dois.
Coutinho tinha o recurso das cartas, e entrou a usar dele com todas as forças. Nunca o vocabulário de Cupido subiu a maior grau de calor e entusiasmo; Coutinho empregava todas as tintas da palheta: o cor-de-rosa da felicidade conjugal, o sombrio e negro dos desesperos, o sangüíneo das revoluções últimas; tudo fez o seu papel nas epístolas do pretendente fluminense.
Alberto compreendeu que a epístola devia acompanhar os seus meios de campanha, e usou dela com descomunal liberalidade.
Luísa ignorava todas as circunstâncias acima referidas, e o redobrar de esforços da parte dos dois candidatos não fez mais do que alimentar-lhe a natural vaidade de moça bonita. Entretanto, veio uma carta do pai de Alberto instante por uma resolução definitiva; Alberto resolveu dar o grande golpe e dirigiu-se à esquiva moça
— D. Luísa, lhe disse ele, já sabe que eu ardo, que eu sinto dentro de mim um terrível fogo que me há de consumir.
— Mas...
— Ouça-me. Era meu interesse conservar as ilusões em vez de me expor a um desengano certo; mas há situações que não comportam dúvidas; eu prefiro uma cruel franqueza; farei depois o que me inspirar o desespero.
Luísa sorria-se sem dizer palavra.
— Zomba comigo, já vejo, disse melancolicamente Alberto.
— Oh! não!
— Então fale!
— Pois bem...
Hesitou.
— Diga, ama-me? instou Alberto.
— Amo, respondeu Luísa deitando a fugir.
O paraíso de Maomé, com todas as delícias prometidas no Alcorão, não chega aos pés da felicidade que a simples resposta da moça introduziu na alma do pobre candidato. Alberto saiu para a rua.
Precisava de ar.
De tarde foi ter com o rival.
— Enfim! disse ele ao entrar.
— Que há? perguntou Coutinho tranqüilamente.
— Tudo está decidido, respondeu Alberto.
— Derrota?
— Vitória! Perguntei-lhe se me amava; disse-me claramente que sim. Não pode imaginar o prazer que eu senti quando ouvi de seus lábios a mais doce palavra que os homens inventaram.
— Imagino tanto mais esse prazer, redargüiu fleugmaticamente o Coutinho, quanto que eu mesmo ouvi essa palavra a meu respeito.
Alberto enfiou.
— Quando?
— Ontem de noite.
— É impossível! clamou Alberto furioso.
— E já depois disso, continuou Coutinho finamente, recebi esta carta que é a confirmação do que ontem lhe ouvi.
Dizendo isto apresentou a Alberto uma carta de Luísa.
— De maneira que... balbuciou Alberto.
— De maneira que, concluiu Coutinho, estamos na situação em que nos achamos antes.
— Olhe, eu teria deixado o campo se não me parecesse covardia, e se não sofresse horrivelmente com a separação, porque eu amo-a com todas as forças de minha alma.
— Como eu, disse Coutinho.
— Que faremos? perguntou Alberto depois de uma pausa.
— Insistir.
— Como?
— Cada um de nós lhe perguntará se ela quer casar e nos escolhe para noivo. A isto não é possível que ela dê a mesma resposta a ambos; há de decidir-se por um. Dando este conselho, Coutinho procedia velhacamente porque justamente alguns minutos antes de entrar Alberto tinha mandado uma carta à moça perguntando se podia ir pedir lhe a mão ao pai, e esperava que a resposta chegasse logo e pusesse termo ao conflito. Mas a resposta não veio.
Ficou convencionado que dentro de oito dias tudo estaria resolvido, e um deles seria o vencedor.
Luísa disse à noite ao Coutinho que não mandara resposta à carta por não ter podido escrever.
— Mamãe anda muito desconfiada, disse ela.
— Bem, mas que me responde agora? perguntou Coutinho.
— Oh! deixe-me escrever, disse a moça, eu quero dizer-lhe tudo o que sinto... espere, sim?
Coutinho declarou que esperava.
— Contudo... disse ele.
— O quê?
— Se não fosse agradável a resposta, se não fosse a vida que eu espero e me é necessária?
Isto era ver se obtinha logo a resposta.
Luísa respondeu:
— Não seja desanimado...
— Então?
— Olhe, mamãe que está com os olhos em mim.
Oito dias se passaram nestas dúvidas até que os dois candidatos, por comum acordo, mandaram uma carta à moça, um verdadeiro ultimatum.
Era uma sexta-feira, dia aziago, e além disso 13 do mês. Os míseros pretendentes não repararam nisso, e atreveram-se a lutar com a fortuna em dia de tamanha desgraça. Coutinho foi então à casa de Alberto.
— Mandei a minha carta, disse o fluminense.
— E eu a minha.
— Esperemos a resposta.
— Que lhe parece? perguntou Alberto.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Uma loureira. Jornal das Famílias, Rio de Janeiro, v. 10, n. 4, p. 110-128, abr. 1872.