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#Contos#Literatura Brasileira

Um homem superior

Por Machado de Assis (1873)

Carlota estava banhada em lágrimas.

— Ora, pois, continuou o comendador, se me querem fazer o último favor, ouçam-me. Passou um relâmpago pelos olhos de Clemente Soares. O rapaz inclinou-se sobre a cama. O comendador tinha os olhos fechados.

Houve um longo silêncio, no fim do qual o comendador abriu os olhos e continuou:

— Consultei novamente a minha consciência e Deus, e ambos aprovam o que vou fazer. São ambos moços e merecem-se. Se se amarem, juram casar-se?

— Oh! não fale assim, disse Clemente.

— Por que não? Eu já tenho os pés na sepultura; não me fica mal dizer isto. Quero deixar felizes as pessoas a quem mais devo...

Foram as suas últimas palavras. No dia seguinte, às oito horas da manhã, deu a alma a Deus.

Algumas pessoas da vizinhança ainda assistiram aos últimos instantes do fazendeiro. Fez-se o enterro no dia seguinte, e pela tarde pediu o nosso Clemente Soares um cavalo, despediu-se da jovem viúva, e tomou caminho da corte.

Não veio, porém, até à corte. Deixou-se estar nas imediações da fazenda, e no fim de oito dias apareceu lá em busca de não sei que objeto que lhe havia esquecido. Carlotinha, quando soube que o rapaz estava na fazenda, teve um momento de regozijo, de que logo se arrependeu em respeito à memória do marido.

Curta foi a conversa dos dois. Mas foi quanto bastou para fazer a felicidade de Clemente.

— Vá, disse ela, que eu bem compreendo a grandeza de sua alma nesta separação. Mas prometa que voltará daqui a seis meses...

Juro.

VII

Pedira o comendador aquilo que os dois desejavam ardentemente.

Seis meses depois eram casados o jovem Clemente Soares e a gentil viúva; não houve nenhuma escritura de separação de bens, pela simples razão de que o noivo foi o primeiro que propôs a idéia. Verdade é que se a propôs, é porque tinha a certeza de que não seria aceita.

Não era Clemente homem que se encafuasse numa fazenda e se contentasse com a paz doméstica.

Dois meses depois de casado, vendeu a fazenda e os escravos, e veio estabelecer vivenda na corte, onde hoje foi conhecida a sua aventura.

Nenhuma casa lhe fechou as portas. Um dos primeiros que o visitou foi o negociante Medeiros, ainda em tristes circunstâncias, e por tal modo que chegou a lhe pedir algum dinheiro emprestado.

Clemente Soares fez a felicidade da mulher durante um ano ou pouco mais. Mas não passou daí. Dentro de pouco tempo, Carlotinha estava arrependida do casamento; era tarde.

Soube a moça de algumas aventuras amorosas do marido, e censurou-lhe esses atos de infidelidade; mas Clemente Soares motejou do caso, e Carlotinha recorreu às lágrimas. Clemente levantou os ombros.

Começou uma série de desgostos para a moça, que ao fim de três anos de casada estava magra e doente, e ao fim de quatro expirou.

Fez-lhe Clemente um pomposo enterro a que assistiram até alguns ministros de Estado. Vestiu-se de preto durante um ano, e quando acabou o luto foi viajar para se distrair da perda, dizia ele.

Quando voltou, encontrou os mesmos afetos e consideraqões. Algumas pessoas diziam ter queixas dele, a quem chamavam ingrato. Mas Clemente Soares não se importava do que a gente dizia.

Aqui acaba a história.

Como! E a moralidade? A minha história é isto. Não é uma história, é um esboço, menos que um esboço, é um traço. Não me proponho a castigar ninguém, salvo Carlotinha, que se achou bem punida de ter amado outro homem em vida do marido. Quanto a Clemente Soares nenhuma punição teve, e eu não hei de inventar no papel aquilo que se não dá na vida. Clemente Soares viveu festejado e estimado por todos, até que morreu de apoplexia, no meio de muitas lágrimas, que não eram mais sinceras do que ele foi durante sua vida.

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