Por Machado de Assis (1874)
Batista não respondeu; imaginou logo que estava espiado e achou conveniente não dizer palavra e safar-se. Infelizmente, a noite estava escura e podia ele esbarrar-se com algum dos rapazes.
— Meu Deus! exclamou a moça. Que é?
— Nada...
— Alguma coisa há de ser.
— Descanse. Foi um espirro. Como ia dizendo, este momento aqueles seus manos são moços alegres mas dignos... Que galante idéia tiveram de me meter no banho!
— Isso é irônico, disse Teresa.
— Qual! é sincero! eu só me zango no momento; mas depois, reconheço logo que não há intenção de caçoar comigo...
Desta vez recebeu um esguicho por trás.
— Ai! disse ele.
— Mas que tem você? perguntou a namorada aflita...
— Nada! é um calo. São excelentes aqueles moços...
Outro esguicho nas pernas.
— São excelentes; continuou Batista tremendo de frio e de medo. Eu, se os encontrasse agora, abraçava-os.
Desta vez foram dois grandes esguichos. Batista teve idéia de pedir perdão; mas por um resto de pudor, não quis fazer figura triste diante da namorada.
Esta cada vez compreendia menos o rapaz. Os esguichos continuaram; ele falava entrecortando as frases; ela chegou a suspeitar que ele estivesse doido.
— Há de perdoar-me, disse ele, está fazendo um frio; vou-me embora.
— Já?
— Já.
— Adeus.
— Adeus!
— Até amanhã.
Teresa fechou a janela; Batista olhou à roda de si, não viu ninguém e procurou aproximar se do muro para saltar.
Nesse momento caiu-lhe sobre as costas uma caldeirada d’água. A moça entrou dando um grito. Acordou Lucinda e ambas foram acordar o resto da família.
— Hão de ser os endiabrados! Que pecado cometi eu? exclamou D. Angélica saltando fora da cama.
Dentro de pouco tempo estavam todos a pé, com velas acesas na mão, e dirigiram-se para o fundo, abrindo as janelas que davam para o quintal.
D. Angélica, desceu munida de um vergalho, e apareceu no quintal onde se passava a tragicomédia.
Batista esperneava dentro da gamela. Os dois irmãos o prendiam enquanto o moleque lhe despejava baldes d’´gua
— Que é isto? perguntou D. Angélica.
E avançou brandindo o vergalho.
O perigo era iminente.
Os dois rapazes agarraram em Batista.
Carlos sentiu uma vergalhada nas costas; outra vergalhada foi diretamente a Benjamim. Que fazer? Os dois pegam do corpo de Batista e fizeram dele escudo, de maneira que as vergalhadas que D. Angélica, cega de furor, cuidava dar nos filhos, quem as apanhava era o futuro genro.
Teresa desceu abaixo; e suspendeu o braço da mãe, quando já Batista sentira todo o peso do braço da viúva Sanches.
Cessou a pancadaria; Batista foi levado para cima, e D. Angélica perguntou como é que os dois rapazes tinham podido pilhar Batista no quintal para maltratá-lo assim. Aqui estava o nó da situação.
Batista, não querendo confessar que fora conversar com a futura noiva, e temendo as revelações dos rapazes, disse que fora lá para tratar com eles uma caçoada, e que aquilo era uma brincadeira.
Ao mesmo tempo dirigiu um olhar suplicante aos moços, que confirmaram a história, escapando assim a uma infalível correção.
Nessa noite todos dormiram mal.
Quando no dia seguinte, Tibúrcio soube do fato, sorriu dizendo que também o Batista merecia a presiganga.
Acabou o entrudo, felizmente para o Batista, e a quaresma felizmente para ele e a noiva, que se casaram e dão-se muito bem.
Batista vendeu o armarinho, e joga o gamão numa botica todas as tardes.
Baixar texto completo (.txt)ASSIS, Machado de. Um dia de entrudo. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, jun.-ago. 1874.