Por Machado de Assis (1877)
— Vem cá, Seixas! dizia José Marques neste último caso.
— Vou com pressa; até logo!
José Marques ficava a olhar para ele, e dizia ao outro:
— Sempre na labutação! é um homem de truz.
— Oh! lá isso é!
— Bom pai de família... Não, senhor, não me arrependo do benefício que lhe fiz. Seixas, entretanto, andava cogitando nos meios da fazer uma viagem à Europa. Não se pode dizer que José Marques fosse a causa disso; mas nas vantagens da viagem, entrava a da ausência deste. Uma só dificuldade havia; era o casamento de Elvira. Elvira, a filha de Seixas, era na verdade uma herdeira graciosíssima, que ainda não sabia haver-se com as cassas e as sedas de que a vestiam, ela, que passara os primeiros anos envolvida em chita, algumas vezes rota. Mas era mulher, bonita e vaidosa; depressa se acostumou às exigências da nova posição. Tinha uns olhos e uns cabelos, negros como a noite escura, uns olhos que traziam desvairados outros da mesma e de outras cores. Mas só dois olhos eram felizes; eram os olhos do novo guarda-livros da casa do pai. Este empregado amava tanto a filha do patrão, como o leitor ama a rainha Pomaré; a faculdade mestra de sua organização era a do negócio. Viu em Elvira uma herdeira bonita, e atirou-se a ela; nada mais.
Seixas percebeu o namoro e aprovou-o mentalmente; esperava que o rapaz a pedisse para consentir logo; mas este hesitava ainda, ou receoso do resultado, ou desejoso de fortalecer mais a sua posição. Não foi ele, porém, o único ferido pela seta do amor. José Marques sentiu-se igualmente tocado da misteriosa arma. Velhote ainda fresco e bem disposto, não pôde nem quis resistir ao ferimento, nem levou a autora à polícia; rendeu se-lhe aos pés. Elvira deu pela vítima antes mesmo que esta desse por si. É privilégio comum a todas as mulheres. Um homem, quando acontece ser amado por uma senhora, sem iniciativa dele, quase precisa que lhe vão levar a notícia à casa; a mulher é a primeira que vê incêndio na casa do vizinho.
Viu Elvira o incêndio e deixou-o arder. José Marques, porém, foi pedir à moça um pouco de aguada da sua benevolência para atalhar o mal. Vê a leitora que estamos em pleno pays du tendre. Não lhe pediu ele com a boca, mas com os olhos; Elvira entendeu e riu. Ele pensou que o riso era afirmação e levantou as mãos ao céu.
— Quem diria que aquela santa seria tão cedo substituída! exclamou José Marques dentro de si.
Depois cogitou. Cogitou e hesitou. Hesitou, mas venceu, isto é, dispôs-se a casar.
— Dirão muita coisa de mim, pensou ele; mas hão de levar em conta as verduras de uma mocidade prolongada.
Verduras!
Assim disposto, convencido e resoluto, foi José Marques ter com o Seixas.
— Tenho uma coisa para te pedir, disse ele.
— Fala.
— Uma coisa séria.
— Pois fala!
— Muito séria. Que pensas de mim?
— O que penso?
— Sim; que te parece a minha idade?
— Respeitável.
— Justamente: uma idade respeitável, isto é, não caio de maduro.
— Oh! nem eu!
— Nem tu. De maneira que se te dissessem que eu me ia casar, não te admiravas?
— Casar!
— Responde.
Seixas hesitou um instante.
— Não me parece, disse ele, que a coisa fosse de todo desarrazoada. Devo, contudo, dizer-te que não posso ser padrinho... Ando agora muito ocupado.
José Marques sorriu à socapa.
— Nem é para isso que te convido.
— Ah!
— Convido-te para coisa melhor; convido-te para pai.
— Pai!
— Pai da noiva.
— Pai da noiva!
José Marques abriu os braços.
— Dá cá esses ossos! exclamou. Eu restituí-te a vida um dia; tu vais restituir-me a felicidade doméstica.
Seixas começava a ter umas suspeitas da realidade.
— Explica-te! disse ele.
— Peço-te a Elvira.
Seixas não caiu das nuvens, porque já vinha a meio caminho; mas ficou consternado. A consternação era uma prova de simpatia, a última que ele lhe podia dar. A idéia de José Marques parecia-lhe que frisava com a demência. Depois da consternação teve vontade de rir; mas conteve-se. Conteve-se, levantou os ombros, e não respondeu ao pretendente; nem o poderia fazer se quisesse, porque este entregara-se todo a uma descrição vivíssima do afeto que a moça lhe inspirava, e da ambição que tinha de a fazer feliz.
— Meu caro Marques, disse enfim o pai de Elvira, serei franco. Não te posso dar minha filha.
— Não?
— Não posso.
— Mas por quê?
— Tenho outras idéias.
— Será possível? Parece-me contudo que... Estás brincando, decerto.
— Não estou; destino-a a outro.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Um almoço. Jornal das Famílias. Rio de Janeiro, 1877.