Por Machado de Assis (1994)
CAM. Galanteios, galanteios de que se há de falar lá fora... (Gesto de D. CATARINA) Ah! Cuidais que estes amores nascem e morrem no paço? Não; passam além; descem à rua, são o mantimento dos ociosos, e ainda dos que trabalham, porque, ao serão, principalmente nas noites de inverno, em que se há de ocupar a gente, depois de fazer as suas orações? Com que, éreis vós? Pois digo-vos que o não sabia; suspeitava, porque não podia talvez ser outra... E confessais que lhe quereis muito. Muito?
D. CAT. Pode ser fraqueza; mas crime... onde está o crime?
CAM. O crime está em desonrar as cãs de um nobre homem, arrastando-lhe o nome por vielas e praças; o crime está em escandalizar a corte, com essas ternuras, impróprias do alto cargo que exerceis, do vosso sexo e estado... esse é o crime. E parece-vos pequeno?
D. CAT. Bem; desculpai-me, não direis nada...
CAM. Não sei.
D. CAT. Peço-vo-lo... de joelhos até... (Faz um gesto para ajoelhar-se, ele impede-lho).
CAM. Perdereis o tempo; eu sou amigo de vosso pai.
D. CAT. Contar-lhe-eis tudo?
CAM. Talvez.
D. CAT. Bem mo diziam sempre; sois inimigo de Camões.
CAM. E sou.
D. CAT. Que vos fez ele?
CAM. Que me fez? (Pausa.) D. Catarina de Ataíde, quereis saber o que me fez o vosso Camões? Não é só a sua soberba que me afronta; fosse só isso, e que me importava um frouxo cerzidor de palavras, sem arte, nem conceito?
D. CAT. Acabai.
CAM. Também não é porque ele vos ama, que eu o odeio; mas vós Senhora D. Catarina de Ataíde, vós o amais... eis o crime de Camões. Entendeis?
D. CAT. (depois de um instante de assombro). Não quero entender.
CAM. Sim, que também eu vos quero, ouvis? — E quero-vos muito... mais do que ele, e melhor do que ele; porque o meu amor tem o impulso do ódio, nutre-se do silêncio, o desdém o avigora, e não faço alarde nem escândalo; é um amor...
D. CAT. Calai-vos! Pela Virgem, calai-vos!
CAM. Que me cale? Obedecerei. (Faz uma reverência.) Mandais alguma outra cousa?
D. CAT. Não. ficai. Jurai-me que não direis cousa nenhuma.
CAM. Depois da confissão que vos fiz, esse pedido chega a ser mofa. Que não diga nada? Direi tudo, revelarei tudo a vosso pai. Não sei se a ação é má ou boa; sei que vos amo, e que detesto esse rufião, a quem vadios deram foros de letrado. D. CAT. Senhor! É demais!...
CAM. Defendei-lo, não é assim?
D. CAT. Odiai-o, se voz apraz; insultá-lo, é que não é de cavaleiro ....
CAM. Que tem? O amor desprezado sangra e fere.
D. CAT. Deixai que lhe chame um amor vilão.
CAM. Sois vós agora que me injuriais. Adeus, senhora D. Catarina de Ataíde! (Dirige-se para o fundo).
D. CAT. (tomando-lhe o passo). Não! Agora não vos peço... intimo-vos que vos caleis.
CAM. Que recompensa me dais?
D. CAT. A vossa consciência.
CAM. Deixai em paz os que dormem. Não vos peço nada. Quereis que vos prometa alguma cousa? Uma só cousa prometo; não contar a vosso pai o que se passou. Mas, se por denúncia ou desconfiança, for interrogado por ele, então lhe direi tudo. E duas vezes farei bem: — não faltarei à verdade, que é dever de cavaleiro; e depois... chorareis lágrimas de sangue; e eu prefiro ver-vos chorar a ver-vos sorrir. A vossa angústia será a minha consolação. Onde falecerdes de pura saudade, aí me glorificarei eu. Chamai-me agora perverso, se o quereis, eu respondo que vos amo... e que não tenho outra virtude. (Vai a sair, encontra-se com D. FRANCISCA DE ARAGÃO; corteja-a e sai).
CENA XI
D. CATARINA DE ATAÍDE, D. FRANCISCA DE ARAGÃO
D. FRA. Vai afrontado o nosso poeta. Que terá ele? (Reparando em D. CATARINA.) Que tendes vós?... que foi?
D. CAT. Tudo sabe.
D. FRA. Quem?
D. CAT. Esse homem. Achou-nos nesta sala; eu tive medo; disse-lhe tudo. D. FRA. Imprudente !
D. CAT. Duas vezes imprudente; deixei-me estar ao lado do meu Luís, a ouvir-lhe as palavras tão nobres, tão apaixonadas... e o tempo corria... e podiam espreitar-nos... Credes que o Caminha diga alguma cousa a meu pai?
D. FRA. Talvez não.
D. CAT. Quem sabe? Ele ama-me.
D. FRA. O Caminha?
D. CAT. Disse-mo agora. Que admira? Acha-me formosa, como os outros. Triste dom é esse. Sou formosa para não ser feliz, para ser amada às ocultas, odiada às escâncaras, e, talvez... Se meu pai vier a saber... que fará ele, amiga minha?
D. FRA O senhor D. Antônio é tão severo!
D. CAT. Irá ter com El-rei, pedir-lhe-á que o castigue, que o encarcere, não? E por minha causa... Não; primeiro irei eu... (Dirige-se para a porta da direita).
D. FRA. Onde ides?
D. CAT. Vou falar a El-rei... Ou, não... (Encaminha-se para a porta da esquerda) Vou ter com a rainha; contar-lhe-ei tudo; ela me amparará. Credes que não?
D. FRA. Creio que sim
D. CAT. Irei, ajoelhar-me-ei a seus pés. Ela é rainha, mas é também mulher... e ama-me. (Sai pela esquerda).
(continua...)
ASSIS, Machado de. Tu só, tu, puro amor. In: ASSIS, Machado de. Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. 2.